Uma língua de afeto

Uma língua de afeto

 

Rui Rocha *

Das poucas conversas que tive com Henrique de Senna Fernandes, para além das de circunstancialismo social, foi sobre a língua cantonense. Dizia-me o escritor que a língua cantonense era uma língua muito afetuosa, de grande plasticidade vocal e de insinuantes nuances de sentido. Era, dizia ele em tom jovial, uma língua muito bela para namorar (pak tó 拍拖). Ora apenas um falante que habita os subtis recantos subliminares da língua cantonense pode falar de uma maneira tão emotiva dessa língua. Toda a língua materna é uma língua de afeto, pois é aquela em que os cidadãos, enquanto crianças, tomam conhecimento do mundo exterior, descobrindo e designando as coisas que constituem o ambiente que os rodeia, dada a função primeira da língua, a função nominal, da designação. A própria construção da identidade individual está ligada à sua identidade social, fazendo apelo às diferentes relações de afeto estabelecidas (amigos, vizinhos, a língua da rua), dentro do seu meio ecológico.

Dizer-se por isso, no contexto sociolinguístico, sociocultural e sociopolítico de Macau que a língua portuguesa é uma língua de afeto, qual atributo singular e imanente que o Criador reservou à língua portuguesa no universo das 7106 (Ethnologue, 2014) línguas existentes no planeta é, no mínimo, não se ter ideia do sentido e do tempo do lugar da língua como referência sociopolítica e cultural em espaços em que a língua é estrangeira – para além de uma profunda ignorância quanto ao estatuto e às funções das línguas em contextos socolinguísticos plurilingues, como especificamente é o caso de Macau desde o séc. XVI. É, convenhamos, um cliché bem sonante para português patriota ouvir, num conjunto amplo de clichés da banalidade do paupérrimo discurso político sobre a língua portuguesa e da sua visão monumentalista e civilizacional no mundo, mas pode tornar-se ridículo, senão ofensivo, para falantes das outras línguas em contacto, algumas das quais, como a chinesa, que têm uma ancestral e imensa riqueza sociolinguística e cultural e o maior número de falantes do mundo como língua materna.

Se é verdade que a língua portuguesa se abriu várias vezes à generosidade e afeto das outras línguas por vontade dos cidadãos anónimos, e não por políticas linguísticas concertadas e respeitadoras da diversidade, também é verdade que a língua portuguesa foi uma língua de colonização, quantas vezes imposta pela força das armas e pela evangelização. Por isso, a humildade e a parcimónia são boas conselheiras e é elegante que assim seja quando falamos da “nossa” língua. Nenhuma língua é superior a outra, cada cultura é influenciada por outras culturas e o modo como cada língua se afirma nunca é baseado em princípios linguísticos, estéticos ou outros, mas sempre em considerações extralinguísticas, nomeadamente económicas, políticas e demográficas.

Qual é o valor real da língua portuguesa em Macau? Ora bem…cerca de 95 por cento das escolas de Macau são privadas, com uma quase total autonomia para escolherem a sua língua veicular de ensino e as línguas segundas de ensino. Os pais e encarregados de educação dos alunos dessas escolas querem que os seus filhos aprendam fundamentalmente o inglês – o esperanto do mundo na ciência, na tecnologia, no business, na cultura e nas artes. Para dar uma ideia de quão importante é uma língua para o debate mundial das ideais, daria um exemplo muito simples. Thomas Piketty publicou na Seuil, em setembro de 2013, um livro intitulado “Le Capital au XXIe siècle”. Este livro passou completamente despercebido aos olhos dos economistas e dos leitores do mundo inteiro. Em março de 2014, a Belknap Press da Harvard University Press publicou a versão inglesa do livro e este tornou-se, em poucos meses, o livro mais vendido na Amazon e estimulou o debate no mundo inteiro sobre as propostas reformistas do autor dentro do sistema capitalista de mercado.

A língua portuguesa é, como sabemos, uma língua fundamental em Macau não porque está consignada na Lei Básica na qualidade de “também língua oficial”, mas porque tem um valor muito objetivo e muito pragmático em três nichos profissionais muito específicos: na área do Direito e tudo o que respeita aos operadores do Direito, na área da Administração Pública e, por fim, na nobilíssima e difícil arte da Tradução e Interpretação.

O discurso da massificação do ensino da língua portuguesa em Macau e na China é um delírio pouco credível e pouco responsável para quem deseja que a língua portuguesa cumpra eficaz e talentosamente o seu papel de língua de trabalho nas três áreas antes mencionadas. E é às universidades de Macau que deve caber esse papel de capacitador de competências científico-linguísticas, pedagógico-didáticas e interculturais dos professores do ensino de língua portuguesa, tanto no ensino curricular como no ensino extracurricular, pois é para isso que as universidades existem, é lá que se estudam as línguas na perspetiva contrastiva e de distância interlinguística, é lá que se avalia a qualidade do ensino ministrado, é lá que se formam os alunos que escolheram saberes que utilizam a língua portuguesa.

A importância da língua percebida como o capital simbólico mais importante dos seres humanos nunca mereceu muita atenção em Macau. Não existe uma comissão especializada sobre política linguística a funcionar em pleno no Conselho da Educação para estudar o “peso” do estatuto e das funções das línguas em presença em Macau e para fazer refletir a sua importância no sistema educativo tutelado pelo governo, tal como não existe qualquer universidade em Macau com uma verdadeira faculdade de línguas. E em boa verdade se diga também que não existe um verdadeiro centro universitário de estudos linguísticos da(s) língua(s) chinesa(s) em que se estude a(s) língua(s) chinesa(s), os seus topoletos e dialetos.

A sobrevivência da língua portuguesa em Macau verificar-se-á apenas em áreas muito circunscritas e, neste aspeto, temos de ser realistas, sob pena de andarmos distraídos com imaginários linguísticos importados que, por ignorância ou patriótico atavismo, facilmente confundem a árvore com a floresta. Mas terá de ser uma sobrevivência com inequívoca qualidade e prestígio, o que é incompatível com o amadorismo e a confrangedora politiqueirice da língua portuguesa. Macau tem universidades capazes para dar dignidade, sem momumentalismos bacocos de inspiração neocolonial, à língua portuguesa e ao relevante papel que lhe cabe em Macau num diálogo aberto e fértil com a língua chinesa e outras, se porventura for permitido fazer às universidades o que podem e devem fazer e, também, se forem cumpridas as orientações do Governo Central relativamente à internacionalização de Macau e à sua aproximação aos países de língua oficial portuguesa, inscritas no artigo 51º do 12º Plano Quinquenal de 2011.

Por vezes até parece que o propagandeado afeto à língua é apenas o sindroma da subsídiodepedência e um calculista amor em demanda da pataca…

(O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa, Universidade Cidade de Macau

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One thought on “Uma língua de afeto

  1. Inês Branco says:

    Bom artigo de opinião. No entanto, faço três observações: 1) o título induz um pouco em erro. 2) “A sobrevivência da língua portuguesa em Macau verificar-se-á apenas em áreas muito circunscritas”. Os três nichos referidos estão directamente relacionados com o facto de a LP ser língua oficial. Portanto, teremos mais 35 anos, no máximo. Quinze já passaram. 3) “o modo como cada língua se afirma nunca é baseado em princípios linguísticos, estéticos ou outros, mas sempre em considerações extralinguísticas, nomeadamente económicas, políticas e demográficas”. Aqui o Brasil tem um peso enorme. De longe o maior parceiro comercial de língua portuguesa da China. Se a LP é importante para a China, é por isto. E qual o papel de Macau neste âmbito? Nenhum. O Brasil e a China não precisam de Macau para negociar. Então como tornar a LP importante para a China e consecutivamente para Macau? Fazendo parcerias com instituições brasileiras. O que está a ser feito nesse campo a nível académico?

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