A língua é um dialeto com um exército e uma marinha

Ana Paula Dias *

Em Macau, a lei diz que a língua chinesa é língua oficial. Mas qual língua chinesa? Enquanto alguns consideram o cantonês um dialeto, outros insistem que é uma língua de direito próprio. Classificar línguas é um tema controverso, porque os factos linguísticos e sociais podem ser difíceis de destrinçar. Quem está certo e como diferem os dialetos das línguas em geral?

Usam-se dois tipos de critérios para diferenciar línguas de dialetos. O primeiro é social e político: nesta perspetiva, as línguas têm estatuto oficial, prestígio e escrita, enquanto os dialetos são essencialmente orais, não oficiais e sem prestígio, sendo muitas vezes referidos como gírias, “patois” ou afins. Os linguistas têm critérios diferentes: se dois tipos de língua são tão próximos que os falantes podem comunicar e entender-se mutuamente, são dialetos de uma mesma língua. Se a compreensão é difícil ou impossível, são línguas distintas. Claro que a inteligibilidade é um contínuo e pode até ser assimétrica – no entanto, a inteligibilidade mútua é a base mais objetiva para dizer se dois tipos de discurso são línguas ou dialetos.

De acordo com este critério, o cantonês não é um dialeto. Pelo contrário, é uma língua, como o são o mandarim, o fuquianense e outros tipos de chinês. O falante de cantonês não pode pura e simplesmente minimizar alguns traços do seu discurso e atingir o padrão para ser compreendido por alguém de Pequim. Embora as línguas estejam obviamente relacionadas, um falante de mandarim também não consegue entender cantonês sem o ter aprendido como língua estrangeira. Os filmes cantoneses, por exemplo, são legendados para o público chinês em geral. A maioria dos linguistas ocidentais classifica-as como línguas sínicas, não como dialetos chineses (note-se que existem na China algumas línguas não-chinesas, como o uigur). Embora objetivo, este critério agasta os nacionalistas e não apenas na China: os dinamarqueses e os noruegueses conseguem entender-se mutuamente, o que leva alguns linguistas a classificar as suas línguas como dialetos de uma mesma língua, embora poucos dinamarqueses ou noruegueses o assumam.

O conceito sociolinguístico de Ausbausprache (em termos simples, de língua “modelada” ou “remodelada”) explica a situação: a língua é um marcador da identidade nacional, mesmo que se tenha vizinhos mutuamente inteligíveis. O norueguês não será portanto uma língua, em virtude da proximidade com o dinamarquês; mas é uma Ausbausprache, um padrão oficial e uma realidade sociolinguística que os noruegueses levam a sério como língua.

Os exemplos abundam. Versões locais do italiano e do alemão apresentam denominações várias, desde “sotaques” a “dialetos” ou “linguagens”, e algumas são mutuamente ininteligíveis. Sérvios, croatas, bósnios e montenegrinos estão ocupados a criar Ausbausprachen a partir do que foi outrora um servo-croata único. E pode-se igualmente questionar: e o português e galego? O holandês e o afrikaans? O hindi e o urdu? A inteligibilidade mútua pode ser o padrão, mas mesmo os linguistas, que valorizam principalmente a pronúncia, o vocabulário e a gramática, levam em conta fatores extralinguísticos como a autoperceção e a autorrepresentação.

Na China, o cenário é ainda mais complexo pelo facto de existir uma escrita que une os falantes de língua chinesa (embora a China continental use uma versão simplificada dos carateres utilizados em Hong Kong e Taiwan). Mas esta forma escrita não é um universal “chinês”: baseia-se no mandarim. A confusão surge porque muitos consideram a língua escrita a língua “real” e a oral o parente pobre. O mesmo raciocínio pode ser utilizado para classificar o árabe como uma língua única, embora um tunisino e um sírio, por exemplo, não se entendam facilmente um com o outro. O Ethnologue, um guia de referência para as línguas do mundo, chama ao chinês e ao árabe “macrolínguas​​”, com base na literatura compartilhada e na ininteligibilidade mútua (falada) de muitas variedades locais (que designa por línguas). Os linguistas valorizam principalmente a língua falada: a fala é universal, ao passo que apenas cerca de metade das 7105 línguas do mundo são escritas – o que apoia a definição dos linguistas: as pessoas partilham uma língua se conseguirem comunicar sem grandes dificuldades.

Mas não se pode ignorar o facto de muitos chineses Han considerarem falar variantes locais da mesma língua e não línguas diferentes. A verdade é que a maioria das pessoas não são linguistas e a realidade social é importante. A língua é também uma construção social, uma “comunidade imaginada” e tais construções ou comunidades não devem ser descartadas como fantasias – assim, alguns linguistas, especialmente sociolinguistas, têm em conta o que as pessoas chamam a sua língua, como falam sobre ela e se compartilham uma literatura.

Em suma, há diferentes perspetivas que utilizam diferentes critérios para qualificar o que é uma língua.

* Doutoranda na Universidade de Macau

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