100 metros barreiras

Catarina Mesquita

Como boa portuguesa que sou tenho em mim o mal de à hora combinada de estar em algum lado ainda estou a sair de casa, achando que dá sempre tempo.

Num lugar tão pequeno como Macau, em que as distâncias são curtas, julguei que sair de casa em cima da hora seria suficiente para chegar a qualquer lugar. Não foi preciso muito tempo para perceber que estava enganada ao pensar que, por não ter de me meter no trânsito dos carros, ia conseguir chegar ao meu destino num instante.

Mas, em Macau, o trânsito de pessoas é pior do que a fila em Lisboa para a Ponte 25 de Abril, em dias de chuva.

Comecei a sair de casa muito mais cedo, porém o ritmo dos transeuntes nos passeios da cidade é muito diferente do meu. Quanto mais pressa tenho mais gente tenho à minha frente e mais devagar as pessoas andam. É mais uma prova da lei de Murphy, como se ainda não houvesse suficientes!

Nunca vi ninguém com pressa em Macau. “Será que sai toda a gente de casa uma hora antes para chegar a tempo?”, pensei tantas vezes.

Para ultrapassar as barreiras nesta minha corrida comecei a arquitectar planos na cabeça para conseguir chegar primeiro à minha meta: acertar com a ponta do meu sapato na zona do calcanhar da pessoa da frente, descalçando-a e, enquanto ela recompunha o sapato, ultrapassava-a. Ou então, porque não ignorar as barreiras limitadoras do passeio e, num verdadeiro corta-mato, ir pela faixa de rodagem?

Achei que nenhuma das opções era correcta e optei por me meter em atalhos que baralham o sistema de localização do meu telemóvel.

Num desses becos que passaram a fazer parte da minha rotina, seja a que horas for que passe por lá, vejo uma fila imensa de carros parados à espera de lugar para entrar no parque de estacionamento construído ao fundo da rua.

Passo pelos carros a alta velocidade, orgulhosa por já não ter barreiras de pessoas carregando sacos e trolleys e a calma habitual, mas fico intrigada quanto tempo ficam aqueles condutores no “pára-arranca” na esperança que o letreiro FULL em letras vermelhas garrafais se desligue e as barreiras de acesso ao parque se abram.

Macau está a rebentar pelas costuras. As ruas estão cheias de gente e no mundo subterrâneo escondem-se 13.761 lugares para carros ligeiros divididos em 37 auto-silos públicos que estão sempre cheios.

Segundo a Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego, o Governo está a reunir esforços para encontrar locais adequados e construir mais auto-silos com lugares de estacionamento público.

Mas até quando será adiado este problema e se dará prioridade a tantas outras construções que apenas oferecem momentos de lazer e em nada facilitam a vida do dia-a-dia?

Com uma espera de horas à porta de um lugar de estacionamento sem poder andar para a frente ou fugir para trás, estamos a tornar a cidade num lugar impróprio para quem quer ser pontual e num cenário ideal para atletas dos 100 metros barreiras.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s