Forças “externas” versus Forças da propaganda

Cláudia Aranda

O costume de usar palavras de sentido enigmático como “forças externas” ou “forças estrangeiras” para desviar a atenção do cerne da questão e justificar as falhas do sistema ou a incapacidade do Governo para fazer face à mudança ou a formas diferentes de pensar tem muito da história do Bicho Papão ou do Homem do Saco que leva os meninos que não comem a sopa toda – e pouco de racional.

A imprensa da China Continental é perita em invocar essas “forças do mal”, as “forças hostis” para se referirem, supostamente, a uma eventual “conspiração do exterior”. Quem o diz são os investigadores do “China Media Project” do “Journalism and Media Centre” da Universidade de Hong Kong, que se dedicam a analisar a cobertura mediática na imprensa chinesa focados agora, sobretudo, nos acontecimentos em Hong Kong.

Mo Jihong, investigador da Chinese Academy of Social Sciences, por exemplo, diz que há “black hands” por detrás do movimento Occupy Central em Hong Kong e afirma que “é por causa da instigação e promessas dessas ‘mãos negras’ que os organizadores do Occupy Central se atrevem a encarar com desprezo a autoridade da Lei Básica”.

As pessoas em Hong Kong terem capacidade para pensar pela sua própria cabeça parece tão absurdo para a classe que está no poder que até o próprio Chefe do Executivo Leung Chun-ying veio agora acusar “forças estrangeiras” de fomentarem o movimento pró-democracia na cidade.

As acusações já foram refutadas pelos líderes do movimento que insistem que este é um “movimento criado pela necessidade dos habitantes locais de terem mais liberdades democráticas”. Os pró-democratas chamam a esta atitude dos dirigentes de “tentativa de denegrir o movimento para não terem de fazer concessões”.

Entretanto, em Macau, são as forças da propaganda que alguns deputados locais se preocupam em activar para evitar a “infiltração de forças do exterior” e um Occupy no território. A primeira sessão da Assembleia Legislativa de Macau, que aconteceu na quinta-feira passada foi, em boa parte, dedicada a essa “preocupação”. Como “consolidar as bases para a formação do amor à pátria?”.

O deputado Zheng Anting, eleito por sufrágio directo pela lista de Mak Soi Kun, deu ideias: o Executivo local deve “cumprir a lei de defesa e segurança do Estado”, promover a “educação patriótica nas escolas” e prevenir – lá está – a “infiltração de forças do exterior”.

Os deputados esquecem-se que não são precisas forças externas, nem estrangeiras nem mão negras para as pessoas se darem conta que estão descontentes. É a insatisfação que faz as pessoas saírem à rua (foi o caso dos trabalhadores dos casinos); é quando as pessoas se sentem ultrajadas que saem à rua – como quando milhares se manifestaram contra o diploma que assegurava um regime de garantias especiais aos titulares do cargo de chefe do Executivo e dos principais cargos do Governo. O amor à pátria não se impõe, conquista-se. Basta para isso o Executivo local governar a pensar no bem-estar das pessoas residentes neste território.

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