Tudo o que brilha…

Catarina Mesquita

Esta semana, numa visita a um dos grandes casinos entrei num elevador que me levasse até ao parque de estacionamento. Carreguei no botão P1 que já brilhava para ficar a brilhar ainda mais. A viagem previa-se rápida… tão rápida que nem dava tempo para grandes pensamentos.

Quando a porta espelhada se fechou, reparei nas imagens que nela se reflectiam e que estavam nas minhas costas: leds coloridos que subiam e desciam formando mensagens que eu não conseguia ler, lâmpadas por todo o lado, cada uma com a sua tonalidade.

Pim! Em segundos, o elevador anunciava a chegada ao meu destino. Não consegui resistir a ficar a olhar para aquele espectáculo de luzes à minha volta e voltei a carregar no botão que provocasse no ascensor a sua subida mais longa.

Olhei em volta com mais detalhe e reparei nos dois ecrãs que estavam de cada lado da porta e que transmitiam uma entrevista com alguém que mal consegui identificar porque… Pim! Em menos de um minuto tinha chegado ao destino e as portas abriram-se novamente.

Poderia continuar o dia a subir e a descer no elevador para reparar em todos os pormenores mas achei que aquela experiência teria sido suficiente para concluir que luxo e preocupação ambiental não andam de mãos dadas.

Qual a justificação para haver milhares de leds brilhantes numa viagem de elevador, onde a maioria das pessoas vai a olhar para os seus telemóveis ou para o seu reflexo numa porta espelhada? Um verdadeiro desperdício de energia e recursos!

Foi aí que me lembrei que aquele mesmo elevador faz parte de uma das concessionárias de jogo que beneficia do plano do Fundo para a Protecção Ambiental e Conservação Energética.

O mesmo elevador faz parte de um casino que se insere naquele grupo de esfomeados energéticos que consomem 60 por cento da energia de Macau.

Estarão os critérios de avaliação do Fundo de Protecção Ambiental e Conservação Energética ofuscados pelas luzes brilhantes dos casinos para atribuírem este apoio financeiro a empresas que têm receitas brutas acima de 30 mil milhões de patacas?

Penso que a conservação energética, por exemplo, deveria ser uma preocupação tão intrínseca às operadoras de jogo como a decoração excêntrica dos seus estabelecimentos, sem a necessidade de recurso a fundos de protecção ambiental que lhes valem, neste momento, meio milhão de patacas.

Parece-me que com o benefício de fundos como este, tudo o que mais brilha em Macau é mesmo sinónimo de mais ouro.

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