Sem tradução

Sandra Lobo Pimentel

Na edição de ontem do PONTO FINAL voltou a falar-se das convenções internacionais que são publicadas em Boletim Oficial sem a respectiva versão portuguesa. Tal como defenderam dois juristas locais, e concordo, não deveria ser assim. Não há regra que o expresse, mas pode inferir-se, e não é absurdo que seja exigível, nem que seja pelo bom senso, que no Boletim Oficial da RAEM tudo o que venha a ser publicado o seja nas duas línguas oficiais.

A saga das traduções para português, em especial, no dia-a-dia de um profissional de comunicação social em Macau que não domina a língua chinesa, é dos mais difíceis obstáculos de ultrapassar. Não só em muitas situações não nos permite compreender cabalmente as questões, como também obsta às nossas ideias e projectos. Desde logo, um ponto de honra: não é a língua portuguesa que domina no território e quem não a domina será, naturalmente, dominado. Aqui não há culpas, apesar de poder sempre ouvir aqui e ali que a falha está em quem não aprende a língua dominante para que não se sinta sempre “sem tradução”. Mais uma vez, terá que imperar o bom senso.

A língua portuguesa é uma das línguas oficiais da RAEM. Aqui existem jornais e revistas em português, bem como um canal de televisão e um canal de rádio. É um território que tem a língua de Camões um pouco por todo o lado. E como invocou um dos juristas ouvidos pelo PONTO FINAL, não é condição para se ser residente da RAEM falar cantonense ou mandarim.

Mais do que a questão do ponto de vista jurídico, que tem por si só bastante peso, porque o desconhecimento da lei não pode ser invocado como justificação para o seu não cumprimento, é preciso vê-la de um ponto de vista mais abrangente. Até no futebol local a questão da tradução ou da necessidade de existir uma versão portuguesa das informações disponível se mostra da maior importância.

A popular competição da Bolinha que conta com a participação de formações de matriz portuguesa mas, mais do que isso, com muitos praticantes de origem portuguesa e lusófona, muitos que não dominam o chinês, está a ser disputada sem que o respectivo regulamento tenha sido disponibilizado em português pela Associação de Futebol de Macau.

A mesma Associação mantém uma página electrónica com a esmagadora maioria da informação em chinês e a versão alternativa é em inglês (por que não em português?), no entanto, muitos dos campos de pesquisa estão sem tradução.

O caso que se passou com o FC Porto local, que na última jornada pensaria ter a manutenção garantida, mas afinal, as regras eram diferentes, mostra bem a importância de permitir a cognoscibilidade dos regulamentos a todos, e esse papel cabe, indubitavelmente, às autoridades e entidades oficiais de Macau.

A Associação de Futebol lamenta que a versão portuguesa não tenha sido disponibilizada, mas lamentar é pouco. É preciso mais. Neste aspecto da vida local e noutros tantos. Não basta discursos políticos de circunstância de que o português é importante e é para reforçar. Se são precisos recursos, que se invista neles.

Mas para quem precisa de não ser abandonado sem tradução no dia-a-dia, seja no futebol ou na comunicação social, que veja aqui uma oportunidade e não apenas uma obrigação.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s