Medan Portugis

Inês Santinhos Gonçalves

Achava que era um caso perdido, confesso. Tinha tanta simpatia pela lusofonia e pela plataforma como pela “nossa selecção” e outros clichés agregadores do tipo. Até sinal em contrário, sempre vi a lusofonia como uma entidade artificial, onde a vontade de enriquecer é o grande denominador comum. Até chegar a Malaca.

Não há fóruns, nem tradutores, nem escolas. Mas no bairro português de Malaca onde Afonso d’Albuquerque desembarcou em 1511, iniciando uma presença de apenas 130 anos, até o menor dos patriotas, como eu, se comove.

Quem poderia acreditar que na Malásia continua a haver um grupo de pessoas que se sente português, num país onde há tudo e mais alguma coisa mas nada de Portugal – pelo menos desde o século XVII.

Após três anos a ser bombardeada de conceitos absolutamente artificiais, sem eco na vontade e corações dos povos, encontrei em Malaca o símbolo perfeito do que é a lusofonia, o exemplo acabado da identidade modelada pela língua, da proximidade cultural e afectiva a um país que mora do outro lado do mundo e nunca dá notícias.

Não há nada de turístico para ver no bairro português de Malaca – um conjunto de casas e meia dúzia de restaurantes de marisco. Mas será uma paragem obrigatória para quem aprecia boa conversa (e boa cerveja), sem a pressa de ter de ir a algum lado.

Estes descendentes de pele dourada fazem o que podem para preservar a sua portugalidade. Além dos restaurantes, abriram um pequeno museu sobre cultura portuguesa – tão singelo que até um simples prato ganha lugar de destaque –, ensinam aos filhos o dialecto local (papiá kristang, uma mistura de português antigo com algumas palavras de malaio) e tocam e dançam música popular. A letra por vezes já lhes foge e não perdem a oportunidade de esclarecer com um português que por lá passe, as palavras e significado exactos do ‘Malhão, malhão’.

Pode ter sido do meu olhar emocionado, mas penso que se encontram nos portugueses de Malaca algumas características dos portugueses de Portugal: a afabilidade, o gosto pela conversa, pela comida, pela bebida e pela música, a religiosidade. O espírito de “cabe sempre mais um”.

À mesa do “Restoran de Lisboa” fomos contando a nossa história e ouvindo a deles. Conhecemos também um amigo dos portugueses: um muçulmano adepto da bebida, que todas a tardes encontra naquele grupo os companheiros certos para o seu pequeno pecado – o líquido proibido é servido numa caneca de café, escondido de olhares julgadores.

Quiseram saber o que achávamos que se podia fazer para preservar a cultura portuguesa ali, se Portugal estava melhor dentro ou fora da União Europeia. Se voltaríamos para almoçar no dia seguinte.

Talvez o Medan Portugis não seja aquilo que Portugal quer projectar das suas conquistas pelo mundo. Não é grandioso, nem ousado, nem vanguardista. Mas vive ali por mais de 500 anos sem que nada tivesse sido feito para alimentar os corações. É genuíno.

Malaca é um terreno fértil, que continua a dar frutos sem ninguém o regar. É lamentável que esteja condenada ao esquecimento, abafada pelo barulho das luzes que se impõe noutros lugares.

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