Pedras no sapato

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Após algumas semanas de encerramento, a Rua Sul do Mercado de São Domingos reabre agora com um novo ar. As caminhadas por esta rua são agora possíveis sobre um piso brilhante de calçada portuguesa, ladeadas por novas as tendinhas para os comerciantes locais.

Calcetar algumas ruas de Macau é um continuar a alimentar na cidade a identidade portuguesa, contrariando a vontade que, em Portugal, tem surgido para remoção da calçada das zonas históricas das cidades.

Sabe-se contudo, que este pavimento não é o que reúne as melhores qualidades mas o valor emocional e o estatuto identitário do património que lhe são intrínsecos parecem ter estado nas escolhas de Macau.

Mas porquê dar preferência à utilização deste tipo de pavimento para alimentar a identidade quando há outras grandes questões relativamente à manutenção do património?

Nove anos depois de o Centro Histórico de Macau ter sido classificado Património da Humanidade pela UNESCO, as principais fachadas culturais da cidade estão cobertas de reclames luminosos que brilham tanto ou mais do que o ouro que algumas publicitam.

O Governo está a fazer uma consulta pública sobre a limitação da dimensão e dos locais de instalação dos letreiros publicitários, mas será que há dúvidas que, por exemplo, observar as Ruínas a partir da Rua de S. Paulo é um desafio tão grande que requer uma mestria na “arte das fintas de reclames com a cabeça”?

É inegável que o aumento de estabelecimentos comerciais faça com que também aumentem o número de letreiros, mas não deveria ter havido um controlo antes do aumento desregrado que tem vindo a acontecer nos últimos anos? Bastava levantar a cabeça para as fachadas e ter-se-ia evitado que a UNESCO exigisse um plano de salvaguarda e de gestão destas zonas.

As regras de limitação de publicidade não são uma novidade e já são há muito implementadas em outras cidades, como a vizinha Taipé.

Foram nove anos de erros sucessivos que agora precisam de ser “limpos” o mais rapidamente possível ou os postais de Macau serão de edifícios coloniais embrulhados em placas comerciais que dizem “Forever 21”, “Sasa” ou “Bossini”.

Em Macau, pisam-se as novas pedras no chão da calçada portuguesa mas parecem ignorar-se as que estão dentro dos sapatos.


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