O sonho ainda está vivo

[Pode ir à sua vida]

Sandra Lobo Pimentel

Um artigo da prestigiada revista Time chamou-me à atenção por contar a experiência de um casal homossexual que sofreu com um erro de um banco de esperma nos Estados Unidos. As duas mulheres, brancas, tiveram a surpresa de receber ao fim dos nove meses de gestação um bebé mestiço, já que o dador de esperma era, afinal, negro, ao contrário do que esperavam.

As mulheres vivem em Ohio, de onde é natural o actual presidente dos Estados Unidos, também ele afro-americano. O casal está a processar o banco de esperma pelo erro ocorrido no laboratório, porque, diz, entre outras coisas, não tem “competência cultural” para criar a bebé negra, que tem agora dois anos.

A questão racial deste caso, pelo menos a mim, chegou-me como um soco no estômago misturado com uma enorme estupefacção. Não esperaria de um casal homossexual que já enfrenta questões de preconceito, como também admitiu, um tamanho preconceito relativamente a uma franja da população que continua a sofrer as agruras da discriminação.

As duas mulheres preocupam-se pelo facto de a criança ter que vir a frequentar uma escola só de brancos e dizem não se sentir seguras quando se deslocam a um bairro de negros para arranjar as tranças da pequena Payton, agora com dois anos. Não está em causa a ocorrência do engano e é legítimo que o banco de esperma seja responsabilizado pelo erro, até porque é de uma criança que estamos a falar. É o tipo de erros que não se desfazem ou remedeiam. Lida-se com eles.

Mas é na fundamentação do processo judicial que se podem ver as verdadeiras cores do que se passa com este casal.

Os Estados Unidos têm actualmente o primeiro presidente afro-americano da história. E mesmo sentado numa das cadeiras mais poderosas do mundo, Barack Obama continua a sofrer com racismo e discriminação no país do vergonhoso Ku Klux Klan.

O país que assistiu ao movimento de indignação gerado pela morte dos jovens Trayvon Martin, em 2012, e Michael Brown, já este ano, abatidos a tiro pela polícia, tem mais de 38 milhões de negros. Mais de 12 por cento da população é negra, mas este casal diz que não tem “competência cultural” para criar uma bebé afro-americana e lida com medo, ansiedade e incerteza quanto ao futuro por causa disso.

No país de Rosa Parks, uma bebé nasceu no meio desta controvérsia e, um dia, poderá ler o artigo da revista Time e poderá saber do processo judicial que as mães colocaram. E nesse dia vai saber o que foi invocado. Não sabemos como terá sido a sua vida até aí. Mas espero que as duas mulheres que têm a felicidade de poder viver como casal, de criar uma filha e de ver os seus direitos como pessoas livres, pelo menos, não proibidos, encontrem a “competência cultural” necessária para criar a filha com os valores da tolerância.

A pequena Payton, com a graça das suas trancinhas, vem-nos provar que o sonho de Martin Luther King ainda está vivo e que há lutas que parecem durar uma eternidade.

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