Variações sobre uma entrevista

Filinto Elísio *

  1. Leio, de cabo a rabo, a entrevista de Germano Almeida, amigo e belíssimo narrador cabo-verdiano (O Testamento do Senhor Nepumoceno da Silva Araújo, Ilha Fantástica e Dois Irmãos, para quem anda esquecido) e devo dizer, respeitando opinião diferente, que não concordo com alguma coisa que aí vai. Antes de mais, discordo que com o Crioulo/Caboverdeano nos confinemos ao arquipélago cabo-verdiano, quando nos alargamos mais à Nação Global, das nossas comunidades cabo-verdianas pelo Mundo. Assim, confinar seria relegar esta nossa língua apenas ao nível do ensino primário e secundário, não devendo chegar ao ensino superior e a outras instâncias. Outrossim, o Português é sim nossa língua nacional, como também o Crioulo/Caboverdeano, e, por isso, as duas línguas nossas, nacionais e pátrias, devem coabitar-se em nós com papel sempre relevante e pleno estatuto de oficialidade e de paridade. A par disso, concordo com o resto do que afirma Germano Almeida na referida entrevista e saúdo, satisfeito e orgulhoso, o seu novo romance que, acredito, tal como os outros, acrescentará valência à literatura de Cabo Verde.
  1. Sendo a tertúlia salutar e a diferença sal da democracia, as opiniões de Germano Almeida não caíram, ainda bem, em saco roto. Uns e outros, a partir delas dizem as suas verdades – não sendo de ninguém a Verdade. De vez em quando, os ânimos exaltam-se e os amigos engalfinham-se. E, em muitos casos, extremadas as posições, nem reparam que andam afinal convergentes nos pressupostos sobre a mesa e nas premissas que levantam. Quando assim é, instaura-se o ego a turvar o argumento e a não metaforização do discurso, como diria Arménio Vieira, não lhes resgata o pensamento. No caso, há um erro de paralaxe que é não refletirmos sobre a plena oficialização do Bilinguismo Cabo-verdiano e uma falsa questão que é estarmos com um Bilinguismo problemático e esquizofrénico, utilizando, mental e psicologicamente, uma língua apenas na Casa Grande e outra língua relegada à Senzala. A questão de fundo talvez seja como exaurir, com mais grandeza e mais profundidade, a nossa antropologia cultural, a nossa condição identitária. Sem armas de arremesso…
  1. A língua portuguesa, nossa como de mais 250 milhões de falantes, precisa ser melhor falada e escrita em Cabo Verde. A língua crioula, que nos é materna e determinadora do nosso ethos coletivo, carece de oficialização imediata, não havendo razões de fundo para tanto “compasso de espera” como “muito fingimento” de que já faltou mais. Wole Soyinka, icónico escritor desta nossa África, asseverou que “O tigre não badala a sua tigretude, quando tem de saltar na sua presa para devorar”. Isto dito, sem espírito de caça, implica assumirmos que a questão transcende a badalação destas horas. E com “perdão” por ser assumidamente trilingue: Yes, We Can…

 

Nakozonga

Sai-me da moldura, quiçá do magenta desse quadro na sala, o tal careca como uma lâmpada. Sai-me ele porventura do poema. Não se pode engessar o coração. Escuta-se “Nakozonga”, de Lokua Kanza, e dança-se, antes que chegue cá em casa o pessoal do Canal Mundus 21 para gravar o meu depoimento. E dizer ao Omar Camilo, está fechado – teus desenhos e meus poemas -, uma das próximas viagens artísticas (para ilhas e para o cosmos). Agora, faço swing corporal, quase que danço, pois toca Gerald Toto, Richard Bona & Louka Kanza e tu, meu albatroz, declamas poemas de Charles Bukowski. Quiçá para, quando chegar mesmo a altura, que sejas escolhido. Sem outra alternativa…

*Poeta e cronista cabo-verdiano

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