Os guarda-chuvas voam sempre para algum lado

Sónia Nunes

O mundo tem formas estranhas de se equilibrar, fazendo parecer que para cada pesadelo há um sonho em troca. No mesmo dia em que ouvi um rapaz paquistanês de 13 anos dizer a frase mais triste de sempre quando explica que não gosta do céu azul – os drones norte-americanos, como aquele que lhe matou a avó, não voam com o céu cinzento – vejo um grupo de jovens, um pouco mais velhos, a reproduzir a frase mais bonita de todas porque é a que nos move. “Soyez réaliste, demandez l’impossible”, assim, em francês, 46 anos depois e a 9500 quilómetros de distância, numa outra Primavera que já nos mostrou que os guarda-chuvas voam sempre para algum lado.

Ser realista e exigir o impossível hoje em Hong Kong é pedir eleições livres num país regido por uma ditadura de partido único, obcecado pelo controlo e que não admite outra coisa que não a certeza absoluta de que o Estado é uno e soberano, sob o chavão do “amor à pátria”. A exigência dos estudantes não é irrealista porque um democrata pode ser um patriota, tal como pode haver uma economia de mercado socialista – é esta a elasticidade do princípio “um país, dois sistemas”, assim haja vontade do Partido Comunista Chinês e do povo das Regiões Administrativas Especiais (RAE) em resolver as tensões do conceito criado por Deng Xiaoping.

Ser irrealista hoje em Hong Kong é usar a salvaguarda da segurança nacional como desculpa para negar a realização de eleições por sufrágio directo e universal. Os princípios de unidade, soberania e prosperidade do Estado, além de serem objectivos legítimos, podem ser assegurados por um Chefe do Executivo eleito democraticamente – tanto mais quando existe uma obrigação constitucional de prestar juramento de fidelidade à República Popular da China.

O Governo Central não vai alterar a proposta que tem para Hong Kong eleger o seu Chefe do Executivo em 2017, mas pode fazer com que a segurança nacional deixe de ser um tema controverso ao distingui-la da lealdade ao partido, pelo menos nas RAE. Um patriota pode ser crítico do Governo (local e central) sem deixar de “respeitar a própria nação” e sem prejudicar a “prosperidade e estabilidade” das duas Regiões. “Os que reunirem estas condições são patriotas, quer acreditem no capitalismo no feudalismo ou até na escravatura”, disse Deng Xiaoping. A ideia parece ser ampla o suficiente para incluir esta forma que Hong Kong tem de ser chinês.

Acredito que é esta a vitória do Occupy Central, ter mostrado que o patriotismo pode estar nesta união, identificação e lealdade popular a um conjunto de valores definidos constitucionalmente. Mais do que o voto, foi a defesa do direito de manifestação sem ser atacado com violência que mobilizou a população de Hong Kong, mostrando que ao cumprir a Lei Básica o futuro tem de ser um presente melhorado e não o contrário.

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