O ‘sim’ macambúzio

 

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

“Fomos à Escócia e voltámos

Loucos por ficar a sós

Fomos mas nunca chegamos

A sair do meio de nós”

B Fachada

 

A minha passagem pelo Reino Unido foi breve, pouco mais de dois anos, mas pelo seu contexto, teve em mim um enorme impacto. Curiosamente, ao contrário do que a maioria supõe, nunca vivi em Londres nem em nenhuma cidade inglesa.

Estive, a maior parte do tempo, em Cardiff, a capital do País de Gales, a estudar. Mudei-me depois para Glasgow, na Escócia, para trabalhar, uma estadia que acabou por durar apenas alguns meses – a possibilidade de vir para Macau alterou-me os planos.

Em todo este processo, que incluiu estudar numa universidade, colaborar com jornais, ter trabalhos temporários em restaurantes, e trabalhar nos escritório de uma organização não-governamental, estou certa de que tive uma visão do país muito diferente do que se tivesse vivido em Londres.

O Reino Unido é um conjunto muito diverso e rico. Tanto o País de Gales como a Escócia tentam recuperar as suas línguas nativas, proibidas em tempos por Inglaterra – no País de Gales, o galês é língua oficial apesar de já só ser falado por uma minoria.

Nestes dois territórios – não falo da Irlanda do Norte porque não conheço – encontram-se diferenças culturais assinaláveis em relação a Inglaterra, e também níveis de pobreza que Londres faz questão de ignorar (essa pobreza estende-se também ao norte de Inglaterra, uma espécie de região autónoma latente).

Quando o Partido Nacionalista subiu ao poder na Escócia, fez mais do que prometer um referendo. Avançou, dentro dos seus poderes, com políticas que vão ao encontro da matriz escocesa de defesa do Estado Social – os medicamentos prescritos pelo médico, por exemplo, deixaram de ser pagos.

Admito que a minha experiência na Escócia não seja representativa, mas foi a que tive. Trabalhei num projecto editorial cujo objectivo final era ajudar os sem-abrigo. Nós fazíamos revistas, eles vendiam-nas, conseguindo, assim, o impulso necessário para seguir em frente.

Por vezes, a finalidade da revista servia de atractivo para se conseguir entrevistas com grandes nomes, como o Príncipe William ou Richard Branson – a notoriedade dos entrevistados gerava vendas, as vendas geravam mais lucro para os nossos vendedores.

Um dia, conseguimos entrevistar o primeiro-ministro, David Cameron. Fantástico, pensei, que grande furo. Qualquer publicação enfrenta dificuldades em entrevistar um primeiro-ministro, era uma grande vitória para uma pequena ONG.

Eu estava enganada. No escritório choveram reclamações. Os nossos vendedores, nas ruas de Glasgow de sol a sol, apregoando o produto que os jornalistas conceberam, queixaram-se. Com aquele tipo na capa, ninguém ia comprar a revista. Era mau negócio.

David Cameron é detestado na Escócia, por qualquer pessoa minimamente preocupada com as classes mais desfavorecidas – em Glasgow isso constitui qualquer pessoa que ande na rua de olhos abertos.

Quando soube do referendo pensei nestas pessoas que conheci, pessoas socialmente envolvidas, mas também nas outras que fui conhecendo de forma mais casual. Sabia que votariam ‘sim’.

Sobre a independência da Escócia pouco tenho a dizer, acredito que esta deve acontecer se assim for a vontade da maioria. Não foi. Mas na sexta-feira de manhã, quando era madrugada na Escócia, vi estes meus amigos ligados no Facebook. Muitos tinham tirado o dia de folga para poderem esperar pelos resultados. Senti uma grande emoção por eles, e também por mim, afeiçoada a um país onde fui mais que turista.

No fim, a Internet – o que me chega da Escócia a Oriente – encheu-se de manifestações de tristeza e desilusão. E eu, que admirei aquela demonstração de democracia e civismo, senti também uma certa pena. Do futuro pouco sabemos, mas a possibilidade de mudança irradia sempre esperança.

 

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