Shakespeare em mandarim ou a diplomacia cultural

[Territórios da Língua]

Ana Paula Dias

Doutoranda na Universidade Aberta

 

A diplomacia cultural como instrumento de política externa permite novas formas de inserção internacional, sobretudo económicas, que são as mais almejadas nos tempos de crise que correm. Consiste num conjunto de programas, projetos e ações dos quais participam, de forma articulada, instituições governamentais e atores não-governamentais – voltados para a transmissão de valores, ideias e crenças através das fronteiras internacionais, visando a construção da imagem, do prestígio e da confiança entre os países, fundamentais para aproximação dos povos. A diplomacia cultural, nas palavras de Willy Brandt, é o terceiro pilar da política exterior de um país, juntamente com a política e o comércio.

Vêm a propósito de dois artigos de jornal recentes, que chamam precisamente a atenção para a importância da língua e da cultura no estreitamento de laços, incluindo os económicos, entre os países e para a criação de vínculos fortes entre eles. Um, de Alberto Gonçalves, no Diário de Notícias (“Língua geográfica”, 27/7/2014) alerta que “Por pueril que soe dizê-lo em 2014, nem uma língua se “projecta” nem o seu peso depende de decisões políticas. O inglês não se tornou a língua franca dos nossos dias por decreto, e sim por causa da televisão e do cinema americanos, da música popular anglo-saxónica e da concentração das grandes empresas de informática na costa oeste dos EUA, que levam um fedelho a fazer search, download e convert antes de aprender a escrever “o popó da titi”. Adicione-se, para os eruditos, o domínio do cânone literário contemporâneo, de Dickens ao “assimilado” Nabokov, de Fitzgerald a Bellow, e tem-se tudo aquilo que o português não tem e não terá. A pertinência dos escritores não aumenta ao enfiá-los no Panteão.” O outro artigo, de Cláudia Aranda no Ponto Final (“Quánqiú huà! Chun Kau Fa! Globalization! Globalização!”, 17/09/2014) ilustra o empenho da China na sua internacionalização, através da aposta na língua e na educação, para além de relembrar a verdadeira dimensão das coisas: “A China já pôs alguns milhões no mundo inteiro a quererem aprender chinês. Há centenas (480 supostamente) Institutos Confúcio espalhados pelos diversos continentes. Em países asiáticos como o Japão o chinês é já a segunda língua estrangeira, depois do inglês. Europeus e asiáticos aprendem chinês em busca de empregos especializados na China.”

A partilha de produtos culturais é uma excelente maneira de fazer acontecer tão desejado alargamento dos “mercados”: tornar acessível a cultura e o património próprios a outros povos capta novos públicos e ajuda a cativar mais visitantes para os países, para além de fomentar a compreensão mútua e promover o melhor da cena cultural única e diversificada dos países, em termos de audiências internacionais.

De facto, enquanto continuam a proliferar notícias sobre “a importância do português em Macau e na China” e sobre a magnitude das medidas e esforços para a sua promoção e difusão por cá, ignorando património cultural fundamental e promovendo outro(s) sem relevância ou qualidade, outros países e línguas, com outras visões felizmente mais abrangentes e esclarecidas, promovem efetivamente as suas línguas e culturas. Veja-se o recente exemplo do governo britânico, que vai doar um milhão e quinhentas mil libras à Royal Shakespeare Company para traduzir, pela primeira vez, todas as obras de Shakespeare para mandarim. A doação, anunciada pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto, vai financiar igualmente uma digressão da companhia à China em 2016 e a seleção de obras dramáticas chinesas para serem traduzidas para inglês. As traduções dão continuidade a um intercâmbio cultural centrado em Shakespeare entre as duas nações: em 2012, a companhia do Teatro Nacional da China atuou pela primeira vez em Londres, no Teatro Globe, com a peça “Ricardo III” em mandarim. O governo britânico vai doar trezentas mil libras adicionais para apoiar o intercâmbio entre a China e o Museu Britânico. A digressão da Royal Shakespeare Company vai coincidir com o 400 º aniversário da morte de Shakespeare.

Ao levar o cânone dramático de Shakespeare até aos leitores, cenógrafos e atores na China, o governo espera forjar laços mais fortes com o país, segundo um comunicado do secretário da cultura britânico: “Partilhar o melhor das nossas culturas respetivas é uma excelente maneira de fazer isso acontecer” [1].

Lamentavelmente, pouco nos faz lembrar os 500 anos da presença portuguesa no sudeste asiático…

 

Vd. https://www.gov.uk/government/news/uk-takes-shakespeare-to-new-audience-of-one-billion-people-in-china

[1]

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