Os últimos dias para o referendo da independência

Jason Chao, na Escócia

Activista e líder do grupo Consciência de Macau

 

14 de Setembro de 2014

 

Chego a Glasgow a partir de Londres e avisto raramente cartazes pelo “Sim” e pelo “Não” nas estradas. Porém, deparo-me com um bar designado como “YES” (naturalmente, no mesmo estilo tipográfico da campanha oficial). Escolho jantar lá dentro onde, pela primeira vez, encontro cartazes pelo “Sim” na Escócia.

Regresso ao hotel e ligo a televisão na informação da BBC. Passa uma reportagem sobre uma manifestação que aconteceu horas antes da minha chegada a Glasgow, mesmo à porta das instalações da BBC. Os manifestantes protestavam contra a “aparente parcialidade” da BBC, como a própria estação definiu. Francamente, após ouvir o serviço noticioso completo da BBC, dei por mim a concordar com os apoiantes do “Sim”, segundo os quais a BBC manifesta uma inclinação óbvia pelo lado do “Não”. A insistência nas consequências da independência supera as aspirações da população escocesa quanto à independência.

 

15 de Setembro de 2014

 

Apresentei-me a uma base da campanha pelo “Sim” em Galsgow pela manhã e imediatamente foi-me delegada a tarefa de distribuir panfletos à porta de um museu. Numa cidade densamente povoada como Macau, no período de uma hora teria sido possível distribuir 500 panfletos – mil panfletos em horas de pico. Mas em Galsgow, muito menos povoada, foi necessária hora e meia para distribuir o pequeno molho que me foi entregue.

É difícil dizer que tenha sido a maioria, mas pelo menos mais de metade das pessoas que abordei mostraram uma atitude positiva em relação ao “Sim”. Aqueles que recusaram o panfleto, limitaram-se a dizer “Não, obrigada” – um frase que não transmite apenas uma recusa educada na conversação em inglês, mas é também um slogan utilizada pela campanha “Better Together” que defende o “Não”.

Um casal escocês indeciso perguntou-me por que fazia campanha pelo “Sim”, uma vez que não resido no país. Identifiquei-me como activista pelos direitos humanos na Ásia e expliquei que acredito que os pequenos governos locais têm a capacidade de aproximar o poder da população, dizendo que o movimento pela independência da Escócia, caso seja bem sucedido, pode ter um enorme impacto para os movimentos de auto-determinação e autonomia de todo o mundo.

Achei interessante que uma turista da China me abordasse no sentido de saber quanto mes estavam a pagar para entregar os panfletos.

Durante a tarde, foi-me atribuída uma tarefa ligeiramente mais desafiante: bater às portas, visitando algumas casas. Na minha equipa de três pessoas estavam uma senhora do Quebeque e um cavalheiro de Gales. Ou seja, ninguém nesta equipa era de facto escocês. Todos nós nos deslocámos à Escócia com a crença comum de que a independência do país unirá e fortalecerá os nossos próprios movimentos locais.

Enquanto era transportado até ao destino, ouvi dos líderes da campanha queixas quanto à parcialidade da BBC. Um exemplo bastante óbvio: a BBC entrevistou um apoiante do “Não” que afirmava que a razão pela qual os membros desta campanha não afixavam autocolantes pelo “Não” nas janelas das suas casas era o receio de que estas fossem quebradas. A líder do “Sim” da base onde estava disse não ter tido conhecimento de danos em qualquer janela do “Não” (lembrei-me que a BBC transmitiu a entrevista na noite anterior).

A nossa conversa acabou por tender para o “receio” que o sistema, em Londres, tem estado a criar. Na última semana, possivelmente em conluio com os poderes de Londres, os grandes bancos prometeram mudar os seus balcões para o sul (da Escócia para Inglaterra) caso a Escócia se torne independente. A cadeia de supermercados TESCO ameaçou também aumentar os preços. A primeira linha da campanha comentava que estas eram intimidações com origem no sistema de Londres.

Na maior parte dos apartamentos que visitei havia determinação a favor do “Sim”. Naturalmente, houve “Nãos” firmes e alguns indecisos. Ao contrário do que sugeria a minha experiência em Macau, onde a maioria da população guarda as opiniões para si própria, as pessoas que abordei foram bastante abertas quanto às suas convicções, fossem “Sim”, “Não”, “Talvez Sim”, “Talvez Não”, ou indecisão entre umas a outras. Quando voltei à sede de campanha ao final do dia, foi-me dito que, nos postos de rua, sete em cada dez pessoas abordadas votariam “Sim”. Talvez não fosse a rua mais representativa de Glasgow e da Escócia, mas o “Sim” aparecia na liderança.

Talvez a vantagem do “Sim” tenha impelido a campanha do “Não” a uma reacção mais intensa. A parcialidade da informação da BBC mantinha-se. A melhor parte de um discurso emotivo de David Cameron, em Aberdeen, apelando aos escoceses para que votassem no “Não”, foi repetidamente transmitida. Numa história sobre um encontro de Alex Salmond com empresários, o ângulo abria na parte em que o jornalista confrontava Salmond com questões. Seguiu-se uma outra parte interessante: um programa da BBC, chamado “papers”, no qual os convidados comenta as páginas da imprensa do dia seguinte. Três líderes partidários de Londres emitiram uma declaração comum publicada no jornal Daily Record prometendo a entrega de “novos poderes” ao parlamento escocês e o plano para fazer deste um órgão permanente na Constituição do Reino Unido caso ganhe o “Não”. As promessas de última hora sugerem que o “Não” sabe que está a ficar para trás. Um slogan da campanha do “Sim” questiona “se ficamos melhor juntos, porque é que não estamos melhor agora?” NO entanto, as últimas sondagens apresentadas na BBC dão 51 por cento ao “Não” e 49 por cento ao “Sim”.

 

16 de Setembro de 2014

 

Parti de Glasgow para Edimburgo. O trabalho que me deram foi o de … “carteiro”. Visitei Edimburgo há dois anos, mas não estou muito familiarizado com as ruas. A líder da campanha perguntou-me se conhecia a cidade. “Na verdade, não”, respondi. “Tens um iPhone?”, perguntou. Dei-me conta de que um mapa electrónico era quanto bastava para realizar a tarefa. Segui as direcções do smartphone e entreguei cartas aos moradores de duas ruas. Ao contrário de Macau, onde as caixas de correio estão todas acessíveis no rés-do-chão, aqui há uma pequena abertura rectangular nas portas de cada apartamento. Ou seja, entregar o correio acaba por não ser muito diferente da tarefa de fazer visitas casa a casa.

Nas notícias, alguns documentos confidenciais sobre uma falha de quatro milhões de libras no sistema nacional de saúde na Escócia chegaram à BBC. No momento final, há ataques e campanhas de difamação em força. No entanto, mais uma vez se sugeriu que o “Não” estava do lado mais fraco.

Para preparar este artigo para ser publicado no PONTO FINAL, encontrei um local no exterior da galeria Nacional da Escócia onde poderia trabalhar. A meio do artigo, reparei que o chão da praça estava cheio de desenhos a giz. Vi frases cheias de “Sim”. Alguns dos slogans deixados no chão são assinaláveis: “Não somo londrinos” Somos Escoceses! – Representemo-nos a nós próprios”, “Acreditar numa Escócia livre e independente!”, “Sim, por um futuro melhor e mais verde”, “Feliz Liberdade e Independência!”, “Livres da Ganância de Westminster”. São slogans que não são da campanha oficial do “Sim”, mas que foram criados pelas pessoas comuns. Sinto que têm mais capacidade para levar as pessoas ao campo do “Sim” do que as palavras de ordem oficiais.

 

Conclusão

 

A menos que o campo do “Não” seja, de facto, uma “maioria silenciosa”, com base na minha observação pessoal de um esmagador apoio ao “Sim”, o “Sim” estará em vantagem. Os materiais de campanha do “Sim” estão por todo o lado nas ruas de Edimburgo ao passo que os do “Não” raramente se vêem.

As políticas públicas – finanças, saúde, economia, etc., envolvem questões muito complexas. Nestas campanhas, todas as questões são reduzidas às opções de “Sim” e “Não”. Admito que a campanha do “Sim” demonstra que a independência é a solução para todos os problemas. Eu vejo a independência como a abertura de uma porta para novas oportunidades e à aproximação do poder das pessoas.

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