O peão idealizado

[Editorial]

 

Maria Caetano

 

A proposta de criação de novos circuitos pedonais parece, infelizmente, uma batalha perdida. Não está nos planos imediatos nem nos que lhes estão imediatamente a seguir, e, salvo honrosas excepções, qualquer cidadão que circunstancialmente é peão prefere, se puder, circular ao volante. Querer andar a pé e com passada larga por Macau é hoje quase uma espécie de idealização da personalidade com banda sonora incluída. Ao primeiro embate ou empurrão, vamos ao tapete e invejamos o espaço delimitado e de ar condicionado de um automóvel ligeiro, mesmo que estático, ou o drible veloz de uma motorizada.

O peão idealizado de Macau tem medidas que fazem estremecer de indignação os mentores das campanhas contra a anorexia no mundo da moda. O passeio estreito, em alguns lugares, é uma língua de betão na qual cabem dois pés pequenos, que não sejam chatos, colocados um à frente do outro, e mostra propósitos decorativos – é uma espécie de rodapé das estradas (quando não tão rebaixado que sirva de mera marcação no chão).

Este peão um pouco sonhado pelo acaso também tem a tremenda paciência de realizar pequenas estafetas diárias: três minutos de espera pela luz verde para passar, atravessamento de um sentido da via em oito rigorosos segundos, três minutos de espera pela luz verde que permite atravessar o resto da via em que os carros circulam em sentido contrário (muitas vezes sobre a pálida figura do que já constitui um separador), e mais oito segundos em sprint até à meta. Os períodos da sinalização luminosa programados pelos Serviços de Tráfego são claros a mostrar quais as prioridades da política geral de transportes terrestres.

Esta, grosso modo encomendada e paga a uma empresa de Taiwan para desfilar em consulta pública de que já não há grande memória, sugeriu desde a primeira hora, naturalmente, a aposta nos transportes públicos e, também, a redução das viaturas particulares – tão da conveniência de todos. Até hoje, nem sequer a redução do número de anos regulamentares para abate de veículos ou dos prazos de inspecção.

Além da experiência frustrada do corredor exclusivo de transportes públicos da Avenida Almeida Ribeiro, há outras experiências que também não correram bem. Por exemplo, a audácia de propor a transformação de vias secundárias e com alternativas em zonas destinadas apenas a peões, ou algo perto disso. Recordo-me do caso da Rua de Abreu Nunes, junto do Tap Seac, que ficou pelo caminho, e do incómodo demonstrado pelos moradores e comerciantes face à possibilidade de perda de estacionamento. O peão que estava na mente dos autores da proposta era, no final, apenas um automobilista frustrado.

Os registos do Boletim Oficial, bem vasculhados, revelam que na vida corporativa da RAEM há, enfim, uma Associação de Protecção dos Direitos dos Peões, constituída deste 2006, que em tempos terá funcionado algures na Avenida da Amizade. Desconhecidos membros, morada ou voz activa, talvez seja de supor que os associados se converteram também a outras modalidades de circulação, desmoralizados.

A verdade é que, actualmente, não há qualquer tipo de mobilidade que se apresente como uma conveniência a quem quer que seja. Circular é desgastante, seja a pé, em transportes públicos ou viatura particular. E isso acontece em grande medida pela incapacidade de conter o número de veículos – algo apenas possível com medidas restritivas e obviamente impopulares, como a limitação de importação de veículos e corte de vias ao trânsito. Continuaremos a ser, quando muito, peões de fim-de-semana.

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