Unidos pelo medo

Maria Caetano

Publicamos hoje uma entrevista com o filósofo português José Gil. O autor de “Portugal, Hoje. O Medo de Existir” – generosamente, um ‘blockbuster’ do pensamento português publicado, atendendo à medida modesta destas saídas editoriais – foi convidado pelo Instituto Cultural para um encontro com o público de Macau, leitor ou não leitor da obra, falante ou não da língua portuguesa – a palestra é traduzida para mandarim (e, infelizmente, não também para cantonês, falado pela maioria da população).

Simpaticamente, o convite ao filósofo traduz curiosidade e vontade de transmitir em Macau as ideias do autor sobre um modo de estar português, não necessariamente um modo de ser, mas de uma história que se vai inscrevendo já quase como uma fatalidade. O convívio de Macau com os portugueses tem, como em todas as inserções culturais minoritárias, as suas ideias feitas e reflexões, e, pelo menos, eu, espécime da dita nacionalidade, fico curiosa e atenta a qualquer ideia cultural genérica que possa servir a quem sou, mesmo que acidentalmente, e definir-me de alguma maneira em relação aos outros.

Recordo-me de há três anos, por ocasião de um 10 de Junho e de uma reportagem de efeméride, deparar-me com ideias engraçadas sobre quem sou e quem são os portugueses, algumas surpreendentes. De bom, recordo que alguns jovens locais destacavam o facto de os portugueses falarem a língua dos ‘rr’, algo próximo do trinado de um pássaro, e de serem vistas como qualidades admiráveis o cuidado com as crianças, o interesse pela cultura e pelo património e o sempre eterno fado – género musical, entendido. De menos bom, apontava-se uma certa mentalidade de funcionário, indolência, preguiça, associada ao período pré-1999. ‘All in all’, achei tudo muito simpático, cordial, e até com um tímida expressão de ternura. Mas também já depois disso ouvi cobras e lagartos, semi-atenta, navegando umas escadas rolantes.

A desintegração cultural de Macau é gira na sua normal aberta indiferença – somos todos ilhas assumidas, mesmo na homogeneidade de um nosso cantinho – mas ainda assim gosto de imaginar para Macau uma identidade comum, um depósito de alguma qualidade que assente em todos nós, transversalmente, num traço de permanência no lugar.

Ultimamente, e por defeito, assumo que é o medo que nos une a todos – o que deita um bocado por terra a ideia deste ser uma espécie de idiossincrasia de nacionalidade. Une-nos o gozo de uma situação, que procuramos preservar, mesmo que contrária às ideias que teríamos noutro contexto e que cremos que não nos altera essencialmente. O relativismo geográfico no ideário permite-nos fazer uma coisa em casa e outra na rua, e chamamos-lhe benevolamente respeito pelas diferenças. Unem-nos as impossibilidades e inalterações, o acato e recato público, o temor a todo o vapor e a apatia pós-adrenalina sufragista rechaçada.

O medo de José Gil é muito treslido e adaptado, com desculpas ao autor e aos seus leitores.

 

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