Inquietação

Cláudia Aranda 

O poder e a eficácia das redes sociais na mobilização de multidões unidas e movidas pelas mesmas inquietações continua a surpreender.

As manifestações de Maio em Macau contra o regime de garantias dos titulares de altos cargos públicos que levaram milhares a fazer o cerco à Assembleia Legislativa ostentando faixas a dizer em inglês “Withdraw” (Retirem) tiveram uma forte repercussão nas redes sociais.

Também os protestos recentes realizados pelos trabalhadores das operadoras de jogo presentes no território reivindicando melhores salários e progressão nas carreiras terão tido origem na Internet. Os organizadores, a associação Forefront of the Macau Gaming, terá começado por ser um fórum online participado por umas poucas pessoas dedicado a expressar as preocupações dos trabalhadores dos casinos.

O núcleo, entretanto, “nasceu e vive da Internet” e não precisa sequer de realizar “reuniões formais”, disse a investigadora Esther Castillo. Na base do protesto estiveram as mesmas motivações e objectivos que fizeram os trabalhadores dos casinos a unirem-se e a sair em protesto.

Os analistas dizem que as vagas de protestos em Hong Kong, nomeadamente pela reforma política, também ajudaram a este efeito de “contágio”. As pessoas em Macau começaram a ver este tipo de manifestações como “normal”. A exposição na comunicação social e nas redes sociais, ajudou à “normalização dos movimentos sociais”, disse o académico Larry So.

Regra geral as pessoas têm mais em que pensar do que andar a protestar na rua. Se o fazem é porque o nível de insatisfação assim o justifica e porque, provavelmente, as pessoas estão já a atingir os limites da paciência.

Os protestos que se têm vindo a realizar em Macau estão a acontecer porque o Governo está a falhar, de alguma forma, no cumprimento das suas obrigações.

É a insatisfação que levou à criação do grupo online “Macau Taxi Driver Shame” para denunciar as más práticas dos motoristas de táxi em Macau. O grupo reuniu já mais de 2100 membros e vai constituir-se como associação ainda este mês para que as suas propostas possam ter mais força junto do Governo.

É o descontentamento que levou à criação em Março do grupo no Facebook “Bye bye Real Estate Agents – Macau”, já com 4000 membros. Foi criado para divulgar casas disponíveis para arrendar e como alternativa ao recurso aos agentes imobiliários. O grupo formado por residentes cansados dos abusos cometidos pelos agentes imobiliários também vai constituir-se como associação para marcar posição contra “a impunidade e a desregulação” que existe no mercado do arrendamento de casas em Macau.

Normalmente, as pessoas só querem é que as deixem fazer a sua vida tranquila, ter um trabalho seguro, um salário justo e uma casa digna onde viver. Quando o Governo falha na garantia destes direitos, as pessoas começam a ficar inquietas e juntam-se para fazerem valer as suas reivindicações.

É o exercício da cidadania a acontecer em força em Macau. Mas, também, um alerta para o Governo se focar em medidas eficazes que garantam uma solução para as preocupações dos residentes do território.

 

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