Futebol sustentável

Sandra Lobo Pimentel 

 

A retórica do futebol local tem-nos remetido quase sempre à falta de campos para treinar. Todos os intervenientes, de dirigentes a jogadores, passando pelos treinadores, não perdem oportunidade de referir a lacuna sempre que os microfones da imprensa andam por perto.

O mal não será exclusivo de dois ou três clubes, mas, quem sabe, as razões de queixa não sejam as mesmas para todos os emblemas que se desdobram entre as competições oferecidas localmente.

Facto é que o investimento que se conhece da parte de alguns clubes em atletas profissionais, não se compadece com um factor tão básico como a disponibilidade de campos para treinar. E, acrescento eu, campos que reúnam o mínimo de condições para a prática desportiva.

Naturalmente que não é alheio o facto de Macau ser um território exíguo e, percebe-se com o devido bom senso, que o problema de espaço que serve de argumento para a questão da habitação também aqui se pode aplicar. Mas é preciso tratar o desporto com alguma dignidade, porque digno é o papel que tem na sociedade, em especial, para os mais jovens.

Com uma gestão errada do pouco que está neste momento disponível, pode estar em causa a sustentabilidade da prática desportiva, falando aqui apenas do futebol.

A questão não se resume ao investimento, essa é uma opção de gestão de cada clube e dos seus patrocinadores. A atenção vai para algo talvez mais determinante, que redunda na falta de condições para formar atletas locais.

O Instituto do Desporto tem-se esforçado, como é apanágio oficial, com a criação de escolas para formar os “talentos” locais, no entanto, esse papel devia ser dos clubes (ou também destes), mas se nem para as equipas ditas principais, para as quais angariam as preciosas patacas para contratar jogadores, há condições de treino, como fariam os emblemas para montar escolinhas e, mais importante, pressionar para a organização de campeonatos para estes escalões?

E como tudo se encontra interligado, a falta de clubes com escalões de formação também entrega a disputa e competitividade à ditadura dos patrocínios e das contratações de profissionais para um campeonato que é aquilo que se conhece, com estádios vazios e uma disparidade enorme entre algumas das equipas a jogar no mesmo campeonato.

Para terminar a teia, há ainda a questão dos residentes e a obrigação de os fazer alinhar em número mínimo. Se não houver formação, a evolução do futebol local fica, outra vez, rendida ao que se conseguir trazer de fora e ao que cá dentro consiga não destoar muito.

Uma questão de sustentabilidade, portanto.

 

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