Declaração de voto

Inês Santinhos Gonçalves *

Este domingo assistimos, tenho por certo, ao nascimento de vários novos activistas em Macau. A luta política pode andar distante das pessoas, ocupadas nas suas cansativas minudências quotidianas, mas se há coisa que ninguém gosta – até o mais respeitoso dos filhos – é que lhe digam o que pode ou não fazer.

Para mim, longe de qualquer activismo, foi uma questão de BIR. Esse documento com a minha cara, que me identifica, que é meu, e que entendo ceder a quem quiser, para os fins e causas que a minha consciência escolhe.

Como residente de Macau, não reconheço ao Governo o direito de me dizer a que perguntas posso ou não responder. Há quem lhe chame afronta, eu chamo-lhe liberdade de expressão.

Numa demonstração desesperada de força, o Governo de Macau veio dizer-nos que perguntar ofende, e não é pouco. Há tanto receio que a vontade popular seja contrária à do Governo, que até a colocação de uma mera questão serve de pretexto para o atropelamento da lei. Bastou um leve empurrão, afinal, para o segundo sistema desabar.

Se os promotores do referendo estão a usar e a instrumentalizar o sistema para evidenciar as suas falhas? Claro que sim. Mas o que tem feito o Governo ao longo dos anos, com as suas consultas públicas e reformas políticas, se não instrumentalizar a população para justificar a sua actuação? Se o Executivo fosse honesto – e realmente acreditasse que a maioria da população concorda com o actual sistema de eleição – então não tinha por que se preocupar se há gente a organizar inquéritos sobre o assunto.

Evidentemente que o referendo civil só poderia ser credível se recolhesse os dados de identificação dos participantes – caso contrário a organização podia ser acusada de fabricar votos. Mas claro que nada disso interessa, porque todos sabemos que o problema do Governo não são os dados pessoais, sendo essa questão apenas mais um pretexto para impedir a realização da sondagem informal.

A notícia das detenções dos activistas tem corrido mundo e fica muito mal a Macau. Felizmente, o território já vai merecendo alguma atenção da comunidade internacional, mesmo que à sombra de Hong Kong. Mas mais do que uma questão de imagem, o que se está a passar em Macau é um péssimo presságio – 2049 aproxima-se mais depressa do que muitos esperavam e se as gentes de Macau despertam politicamente, as autoridades nada fazem por acompanhar as suas ambições.

Do Governo de Macau só se espera que continue a ser um cego discípulo de Pequim, restringindo cada vez mais as tão prezadas liberdades e garantias que a lei ainda assegura. Admiti-lo entristece-me e assusta-me. Mas digo-o hoje porque ninguém me garante que o possa dizer amanhã.

* Jornalista

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