Do terceiro mandato e outros erros

Sónia Nunes

Não há nada que esteja certo na eleição do Chefe do Executivo, a começar pela primeira frase do programa político do candidato. Diz Chui Sai On: “Terminarei, em breve, o meu terceiro mandato como Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau”. Salvo melhor opinião, que a minha até é fraquinha, a terminar o que quer que seja este ano é o primeiro mandato. Prepara-se para o segundo e último. Ir para um terceiro mandato é, mais do que uma grandíssima ilegalidade, uma impossibilidade histórica. Se a Lei Básica (pausa para a devida vénia) diz que o mandato do Chefe do Executivo “tem a duração de cinco anos, sendo permitida uma recondução” e Chui Sai On foi nomeado em 2009 restam-nos duas hipóteses: ou o candidato e Edmund Ho são uma só pessoa sendo duas, qual mistério da santíssima trindade, ou o candidato, que até estudou na América, não sabe contar.

Podia perdoar a gafe? Podia, mas não era tão giro. Além disso, o amor que Chui Sai On e fieis seguidores declaram à Lei Básica impede-me a condescendência. Por outro lado, a segunda frase do programa político do candidato faz-me inclinar para a segunda hipótese supra (e brilhantemente) referida. Diz Chui Sai On: “Gostaria de aproveitar esta oportunidade para expressar a minha máxima gratidão ao Governo Central e aos residentes de Macau pela confiança e apoio em mim depositados, pois foram eles que me proporcionaram a valiosa oportunidade de” blá blá bá. A gratificação ao Governo Central faz sentido porque é quem nomeia o Chefe do Executivo, mas agradecer aos residentes é desvalorizar as 282 pessoas que efectivamente votaram nele – a não ser que Chui Sai On tenha contado meio milhão de pessoas no colégio eleitoral, então com 300 membros. Não seria o primeiro.

A confusão entre membros do colégio eleitoral e população é comum e alimentada, de resto, pela Comissão de Assuntos Eleitorais do Chefe do Executivo. E assim chegamos à maior falácia, ao maior engano, à maior tentativa de manipulação de opinião pública deste Verão. Falo (como é adivinharam?) do cartaz promocional sobre aquilo que vai acontecer no próximo domingo no Macau Dome. A coisa faz-se com um grupo de pessoas a subir uma rocha. Dir-se-á que são exploradores, aventureiros, à procura de um bem maior, estão “juntos para uma nova dinâmica” e estão a mentir-nos. Nós não estamos juntos, nem há uma nova dinâmica. Quem participa nisto são 400 pessoas (confesso certo pudor em usar a expressão elite pelo perfil mediano de boa parte dos membros) altamente empenhadas em garantir que nada vai mudar em Macau.

Apresentar o que vai acontecer no próximo domingo como umas eleições onde todos podem participar e ter uma voz no futuro de Macau é uma irresponsabilidade e uma ofensa para quem é excluído do processo. Devem-nos, pelo menos, a fineza de tratar este acto eleitoral como ele é já que não querem que seja outra coisa, sequer que se recolha opiniões sobre isso. Caso contrário, há apenas um termo técnico para o descrever: fantochada. 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s