Eu votava (e votava sim)

João Paulo Meneses

Se estivesse em Macau e pudesse, votava no referendo que está marcado para começar domingo.

Este é um daqueles casos em que, mais importante do que o resultado final, o que conta é “validar” a iniciativa.

Participar é dar um sinal, que me parece inequívoco, sobre o processo de democratização em curso em Macau.

Participar é dar sentido ao segundo sistema – e, mesmo que pareça absurdo, à própria herança que os portugueses deixaram em Macau.

Participar é mostrar que, mesmo não sendo Hong Kong, Macau não é Zhuhai. Ou seja, que as ameaças ou, apenas, os avisos vindos “da China” não são suficientes para matar o esforço de democratização que é inelutável.

Sim, vai demorar; sim, alguns de nós provavelmente já não o vão ver – mas haverá democracia política (no sentido universal, multipartidária) em Macau.

E quando chegar esse dia, o referendo do dia 24 não deixará de ser lembrado. E alguns de vocês não deixarão de dizer que participaram.

Pelo que valeu mas sobretudo pelo que significou: que foi possível resistir aos ‘ventos conservadores da China’, aos medos e receios dos seus porta-vozes e que, um pouco contra tudo e contra todos, se fez!

Sim, não seria a mesma coisa se o Governo e os representantes de Pequim não têm dramatizado o discurso, fazendo com que a participação seja, agora, uma espécie de acto de resistência.

O voto de cada um vale, sobretudo, pelo gesto, pela participação, pela capacidade de resistir.

Como não estou em Macau, não posso votar no referendo. Mas, já agora, claro que votaria sim à primeira pergunta (o chefe do Executivo deve ser eleito por sufrágio universal em 2019) .

 

(isto seria o que eu teria escrito se o referendo estivesse marcado por exemplo para 24 de Agosto do ano passado; no último ano, alguns sinais de atrofiamento da liberdade de expressão tornaram ainda mais importante a participação neste referendo, dando mais sentido à sua realização e tornando-o mais útil; dirão alguns que estou a misturar as coisas, porque esses sinais não têm a ver com o Governo, pelo menos directamente. Mas a minha participação, pelo menos, também, não seria contra o Governo – mas antes por uma ideia).

 

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