Para que serve um colégio eleitoral?

Maria Caetano 

O candidato único/ Chefe do Executivo apresentou na manhã de sábado o seu programa eleitoral, aquele que, por consequência, o orientará em cinco novos anos de mandato, até ao final de 2019, na administração de todos os assuntos da cidade. Estiveram lá os media, para fazer chegar a mensagem à população, e de resto a sessão era destinada aos 400 privilegiados em cuja gama de direitos políticos consta a possibilidade de votar no líder do Governo – com a implícita missão de fazerem na instituição do voto representar os interesses de toda a sociedade, ainda que sectorialmente.

Se o documento apresentado por Chui Sai On merece pouco destaque pela ausência de directrizes concretas para a resolução dos inúmeros problemas diagnosticados ao longo dos cinco anos anteriores (“ouvir, auscultar, consultar” é , lamentavelmente, mais que todo um programa – é todo ‘o’ programa), sobra-nos a atenção para notar o branco acetinado e ubíquo das cadeiras que foram reservadas aos eleitores pela população.

Sucede que em 400 mandatados pelas interessadas direcções das associações para representação de nós, a sociedade, e nossos predilectos ou legítimos interesses, apenas 265 chegaram efectivamente a comparecer. Mais de uma centena – 135 –, um terço, teve mais do que fazer.

Supomos que, à semelhança dos sistemas políticos bastante amadurecidos onde se instalou a apatia face ao voto e à participação – sempre mais sentida em Agosto –, 135 dos nossos 400 representantes se enquadrem, bastante à frente do seu tempo, no fenómeno de absentismo estival e tenham optado por uma ida à praia, naturalmente. Ainda não temos democracia, mas já mimetizamos alguns dos seus tiques, pelo menos – provavelmente, por influência das séries de televisão.

Censuremos, pois, à semelhança dos sistemas políticos avançados, a apatia política destas 135 pessoas e o seu absentismo – talvez precisem de umas lições de lei básica ou formação cívica para espevitar o interesse na coisa pública. De algum modo, é reduzido o fardo de representação que carregam: só tinham de estar lá, numa única sessão, esperar pela possibilidade de colocar uma pergunta cuja resposta fosse difundida em directo pela televisão e, daqui por uns dias, colocar o voto na urna.

Podemos imaginar nos nossos sonhos mais loucos que não seja caso de desinteresse, mas boicote propositado – improvável. Seria uma manifestação tímida e envergonhada de recusa de apoio a Chui Sai On, o melhor candidato à falta de todos os outros? Mas, então, temos de nos lembrar que estas pessoas se puseram a jeito de serem “eleitas”, ou seja, escolhidas para o lugar. E também que o sistema, tal como existe, as favorece. E que compactuam com ele – o mínimo a fazer era serem-lhe leais.

Se há desagrado, este deve ser expresso em palavras e numa desvinculação dos processos e do sistema que permite a existência de “eleições” como aquela a que vamos assistir. Se é caso de desinteresse, cheguem-se para o lado – outros haverá capazes de cumprirem o papel e as responsabilidades.

Em todos os casos, o número de cadeiras vazias do último sábado é apenas um dos muitos sintomas da farsa a que, por conveniência, chamamos sistema político.

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