O despertar de Macau

Sandra Lobo Pimentel

Podia o título sugerir que viesse aqui falar sobre o referendo promovido por Jason Chao e a sua habitual entourage, na expectativa de que surgirá da iniciativa um sinal inequívoco do desejo comum e avassalador da população em tomar as rédeas da representação política.

Também podia sugerir que fosse sobre os vários protestos que as ruas do território têm recebido, nomeadamente, dos trabalhadores da indústria do jogo, que parecem andar entusiasmados nas reivindicações e que, até agora, têm servido o seu propósito de obtenção de mais condições.

Mas não.

Do que falo é do despertar de todos nós. Uns de manhã bem cedo, outros um pouco mais tarde, e outros, até, a horas em que já se iniciou a despedida do sol de cada dia, que Macau é uma cidade que não dorme.

Devo conhecer poucas pessoas que nunca tiveram comigo aquele diálogo cujo tópico é: “Estão a fazer obras no meu prédio”. Desde que cheguei a Macau que me inteirei da realidade de berbequins e batuques seja qual for a hora ou dia da semana. Para uma cidade que tem muita gente a trabalhar por turnos, parece que a lei de prevenção e controlo do ruído ambiental que os deputados vão votar brevemente não vai ajudar a tornar o descanso de quem aqui vive mais… descansado.

Desde logo porque há vários tipos de ruído e para eles um horário diferente. Tanto é que até se fica um tanto ou quanto baralhado. Talvez seja melhor assentar tudo num papel e ficar à espera de apanhar os transgressores. Basta, primeiro, saber exactamente de que ruído se trata, e depois é só olhar para os ponteiros do relógio…

Se para o ruído de vizinhança, ou seja, actividades da vida quotidiana em edifícios habitacionais, o silêncio deve imperar entre as 22 e as 9 horas, já para as obras de modificação, conservação e reparação nestes mesmos edifícios não se pode perturbar entre as 19 e as 9 horas. E aos domingos e feriados não há “ruído perturbador” para ninguém!

Difícil será perceber o que qualificar como “perturbador”. Quem não se importa de ouvir martelar às onze da noite, ou mesmo ter um vizinho madrugador aos berros na escada? Se isso perturba uns, claramente não perturba outros, nomeadamente, os que estão a produzir o denominado ruído.

A proposta de lei diferencia ainda os equipamentos utilizados em obras e trabalhos de construção civil, dizendo que não pode ser efectuada a cravação de estacas entre as 20 e as 8 horas, nem aos domingos e feriados.

Está-se mesmo a ver que com o amplo espaço existente no território, se numa qualquer obra mesmo ao lado de um edifício habitacional, for dia de cravar estacas, o barulho vai chegar às casas antes das 9 horas da manhã…

A lei é sempre para todos, e é árdua a tarefa de conseguir conciliar todas as forças e interesses envolvidos, mas neste caso, parece óbvio que a manutenção do silêncio não se vai cumprir.

Era possível fazer melhor.

 

 

Destaque

“A lei é sempre para todos, e é árdua a tarefa de conseguir conciliar todas as forças e interesses envolvidos, mas neste caso, parece óbvio que a manutenção do silêncio não se vai cumprir”.

 

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