Até sempre

Inês Santinhos Gonçalves

Este domingo faz três anos que cheguei a Macau. Vim directa para as páginas do PONTO FINAL e desde então fiz deste jornal a minha casa. Foi como viver entre uma família disfuncional, mas muito querida – das que nos sugam todas as energias, nos atormentam de preocupação, mas nos dão também aquele essencial sentimento de pertença e propósito. O PONTO FINAL foi sempre o meu sentido para estar aqui, os meus óculos perante este admirável e confuso mundo novo.

A escolha do pretérito perfeito é simples: hoje é o meu último dia de trabalho no PONTO FINAL. Será provavelmente a decisão mais difícil que tomei ao longo destes três anos e uma que assumo com o coração pesado de quem se separa de um ente querido.

Nunca soube, até hoje, o que é estar em Macau sem ser do PONTO FINAL. Tudo o que sei desta cidade devo-o a este jornal e levo daqui na esperança que nunca me abandone.

Serve esta crónica, não só como anúncio da minha partida, mas acima de tudo como homenagem. Escolho fazê-la assim, em páginas públicas, porque é ao leitor que quero contar quem somos e o que fazemos todos os dias.

Há muita coisa que falha quando se faz um pequeno jornal. A limitação de meios e pessoas explica, quase sempre, tudo a que o leitor aponta o dedo. Mas ao fim de três anos posso deixar esta garantia: o PONTO FINAL é feito com a total dedicação de quem cá trabalha. Encontrei aqui um verdadeiro sentido de serviço público, um que infelizmente já rareia. Aqui me disseram que não somos um jornal português, mas sim um jornal de Macau escrito em português. Na alma deste jornal, sempre as incansáveis Maria Caetano e Sónia Nunes, que nunca, mas nunca, nos deixaram cair no paternalismo e sempre fizeram questão de tratar Macau, as pessoas de Macau, com o respeito que merecem. Nunca encontrei (entre os portugueses, claro está) pessoas mais interessadas e genuinamente envolvidas com esta cidade, que se indignam e sofrem e estudam continuamente os meandros políticos e sociais de Macau. Nada disto seria possível, claro, sem o aval do Ricardo Pinto, que nunca se esqueceu do que é ser jornalista e do valor basilar da liberdade.

Saio do PONTO FINAL cheia de orgulho pelos três anos que aqui passei. Três anos em que nunca se recorreu ao insulto, à insinuação, ao facilitismo. Nunca escrevemos por meias palavras, nunca defendemos grupos de interesse e nunca trocámos artigos por palavras de simpatia de ilustres individualidades. Saiba o leitor que metade do tempo que este jornal leva a ser feito, é gasto em debate – estamos certos ao fazer assim? O que é que isto quer dizer?

É provável que o leitor sinta que há temas importantes que não são tratados nos jornais. É fácil assumir que há motivos ocultos para isso. Mas a verdade é que só há uma de duas razões: não temos conhecimento da questão, ou, tendo ouvido falar nela, não temos como prová-la. O PONTO FINAL é, como acredito que são os outros jornais, um espaço aberto aos seus leitores. Se sabe, denuncie.

Para mim, chegou o momento de seguir em frente – o cansaço venceu-me. Mas desta redacção, onde passei mais tempo nestes três anos do que em qualquer outro lugar, só levo lições de integridade. A partir de agora, podem ler-me periodicamente na página três, aberta a cronistas externos. Por lá espero continuar a fazer os possíveis para evidenciar o ridículo e desconstruir a propaganda – as duas grandes traves mestras dos nossos artigos de opinião.

Hoje fecho a porta pela última vez. Mas este será sempre, sempre o meu jornal. Obrigada.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s