Ébolas e outras epidemias

[Um quê de quoi]

 

Cláudia Aranda

 

Os amigos são para as ocasiões, diz-se. Vamos ver se Pequim, Hong Kong e Macau vão ser capaz de mostrar amizade num momento em que os seus parceiros africanos tanto necessitam.

A primeira e até hoje única mulher eleita democraticamente como presidente de uma nação africana está em pânico. Os liberianos estão aterrorizados e incapacitados para fazerem face ao surto de ébola, a terrível febre hemorrágica que já terá morto perto de mil pessoas e afecta pelo menos quatro países: Libéria, Guiné-Conacri, Serra Leoa e Nigéria.

A Libéria está à beira de “uma catástrofe” alertou ainda há pouco dias Ellen Johnson Sirleaf, presidente daquela região rica em madeiras preciosas, ouro, diamantes, um país que ainda mal se refez das duas guerras civis dos anos 80, 90 e 2000. Ao lado, na Serra Leoa, a história é idêntica, ali um conflito civil também devastou a população, a fauna animal, a floresta, ali também se venderam diamantes de sangue para financiar uma guerra pelo poder e onde se recrutaram crianças para dispararem sobre outras crianças, adultos, soldados e civis.

No início deste ano, a República Popular da China anunciava uma expansão de 33 por cento nas relações comerciais com a Serra Leoa – para um recorde de 2 mil milhões de dólares norte-americanos – para a importação de minério de ferro. A China importa 60 por cento de todo o minério de ferro explorado no mundo usado para alimentar as florescentes indústrias da construção e automóvel do Continente.

Este é, também, o minério que levou empresas chinesas como a China Union – uma subsidiária da Wasco Cad, sediada em Hong Kong – a assinarem com o Governo de Ellen Johnson Sirleaf um acordo de 25 anos para o desenvolvimento mineiro e a fazerem um dos maiores investimentos na Libéria do pós-conflito, que viu os seus primeiros frutos em Fevereiro deste ano, com a saída para a China de mais de 50 mil toneladas de minério de ferro.

Em qualquer um destes países há empresas e trabalhadores chineses no terreno, transportados para cá e para lá em voos directos de Pequim para Conacri, capital da Guiné, país riquíssimo em recursos minerais, incluindo, bauxite, ouro, diamantes, urânio e o valioso e cobiçado minério de ferro. Aliás, é neste país parceiro económico da China, que estava em construção a maior exploração daquele minério em África.

Ora bem, ironia das ironias, apesar de tanta riqueza, aqueles países africanos permanecem indefesos face à epidemia. O terror alastra-se, a população vive em estado de alarme. Não há meios, faltam os técnicos, os hospitais, as estradas, as viaturas, não há sequer luvas, não há nada para as pessoas se protegerem e se defenderem.

Em Macau, os Serviços de Saúde estão de alerta e em contacto com os viajantes que chegam daqueles países para controlarem o seu estado. Em Hong Kong distribuem-se folhetos para informar os viajantes sobre os sintomas da doença. Em Pequim o pessoal médico e hospitalar diz-se treinado para detectar casos de infecção.

As autoridades na China Interior e nas regiões administrativas especiais agem pelo seguro e fazem muito bem. Agora, uma vez assegurada a vigilância das regiões receptoras de potenciais infectados, faz sentido os Governos avançarem e ajudarem as autoridades daqueles países a controlarem a doença no terreno, na zona donde ela se propaga.

Havendo uma relação económica tão forte entre o Continente, as RAEs e os países africanos, sendo que há chineses a viver e a trabalhar naquelas regiões, uma vez e tantas vezes proclamada a amizade entre os chineses e os povos de África, esta será talvez uma boa ocasião para mostrar quem é verdadeiramente amigo de quem.

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