O preço da reputação

Iris Lei

Recordo uma viagem pela Europa, em que o agente dos Serviços de Alfândega do aeroporto demorou mais tempo que o habitual a examinar o meu passaporte da RAEM – bastante mais tempo do que aquele que dispensou aos documentos de cor grená ou azul. Consultou o colega do lado e assumi que estivesse a perguntar qualquer coisa como “Onde é Macau?” ou “As pessoas deste sítio precisam de um visto para entrar no nosso país?”

Finalmente deixaram-me passar. Mas, momentos depois, os funcionários da Lufthansa foram mais explícitos: interceptaram-me quando estava na porta de embarque e ouvi-os discutir entre eles: “Onde é a Região Administrativa Especial de Macau?”. Vi-os fazer vários telefonemas para garantir que Macau fazia parte da China e que, por isso, o dono do documento não precisava de visto para entrar no aeroporto de Xangai. Sendo que o processo demorou realmente muito tempo, estive prestes a dizer “Sim, é parte da China mas é diferente do Continente porque é uma região administrativa especial, sob o princípio ‘um país, dois sistemas’, criado pelo antigo líder Deng Xiaoping, e garante à região um alto grau de autonomia durante pelo menos 50 anos”. Mas contive-me e optei por não me estender no discurso perante pessoas que nem deviam saber onde Macau fica no mapa.

Os acontecimentos que relatei passaram-se há já vários anos. É expectável que as regiões sem relação com o jogo saibam pouco sobre Macau – quando me perguntam de onde venho costumo até dizer que sou de Hong Kong, para poupar tempo. No entanto, uma recente experiência em Portugal, em conversa com um australiano num hostel em Faro, encorajou-me a ser mais paciente na altura de explicar de onde venho.

“Macau”, disse hesitante, “é perto de Hong Kong”. “Conheço o sítio, é a cidade dos casinos, até ultrapassa Las Vegas”, respondeu-me. Confesso que fiquei um pouco surpreendida. “Sim, temos milhares de milhões de receitas anualmente”, comentei. Pareceu-me precisar de alguns exemplos. “Todos os anos se faz uma partilha da riqueza e recebemos, por isso, um cheque de nove mil patacas. O Governo subsidia quase tudo: transportes públicos, saúde, educação e várias formas de apoio social”, expliquei. “Nunca ouvi falar disso, acho que não acontece em mais lugar nenhum no mundo. Vocês devem ter vidas muito boas, não?”.

Hesitei na resposta. Pensei no grau de descontentamento dos cidadãos em relação a quase todos os aspectos da governação: os milhões gastos nas empresas de transportes públicos ao mesmo tempo que ocorrem desastres como a Reolian, a Viva Macau e a Macau Dragon; os inúmeros casos de erro médico que levam as pessoas a não confiar nos hospitais e a terem de ir a Hong Kong em busca de cura; os recentes casos na educação, a forma como a Universidade de Macau lidou com a estudante que ergueu um cartaz em protesto e como as instituições de ensino estão a reprimir os académicos por comentarem demasiado o sistema político. E nem ouso pensar na incapacidade do Governo em refrear o mercado imobiliário e melhorar a qualidade da habitação pública.

São inúmeros os exemplos de ineficiência do Governo, mas infelizmente será o actual Chefe do Executivo, Chui Sai On, a ficar novamente à frente do território, por mais cinco anos.

As pessoas costumam olhar com nostalgia para o tempo em que Macau era apenas uma “pequena vila piscatória”, antes da chegada do jogo em 2003.

Há um preço a pagar pela reputação internacional, e sacrificar a qualidade de vida parece ser, pelo menos aos olhos do Governo, algo inevitável.

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