Alarms just went off

Filinto Elísio*

O Português, em Cabo Verde, é uma das línguas nacionais, coabitante com a Língua Cabo-verdiana (conhecida por Crioulo de Cabo Verde) como segunda língua dos cabo-verdianos residentes no arquipélago, mas paradoxalmente (por infantilidade política) ainda a única língua oficial. A maioria dos cabo-verdianos defende que as duas línguas são patrimónios indissociáveis da identidade cabo-verdiana e que ambas deveriam relacionar-se em coabitação e em paridade. Creio que cada um escreve na língua do seu melhor labor literário. Isto me remete ao caso de Kafka que, sendo checo, escrevia em alemão por dominar mais os cânones literários desta última língua. Estaremos perante a questão da literatura menor, na interpretação da língua sob desterritorialização? Creio que não, mas é uma situação muito complexa. A língua portuguesa de há muito que deixou de ser língua exclusiva dos portugueses, tendo-se desterritorializado desde as navegações quinhentistas, e os vários falares em português criam um vasto e dinâmico espaço da lusofonia, sem o qual esta não seria a 6ª língua do planeta. Estaremos nós, em Cabo Verde, perante o “agenciamento maquínico do desejo” e o “agenciamento coletivo de enunciação” atribuídos por Deleuze e Guattari ao fenómeno de Kafka? Somos o mesmo fenómeno, como o é a escrita de Guimarães Rosa e de Manoel de Barros, no Brasil, e de Mia Couto, no Brasil, ou antes disso e noutra língua, James Joyce? Pessoalmente, sendo bilingue, de costados assumidos, diria que a minha inspiração literária é, em grande parte crioula, mas a minha transpiração de escrita tem sido eminentemente em língua portuguesa. Uma coisa é a autoimagem que produzimos nas diferentes etapas do nosso processo histórico, outra coisa é como os outros nos perspetivam. Estas imagens, em proliferação, muitas vezes são difusas, para não dizer confusas. A pulsão literária dominante do cabo-verdiano é a da língua portuguesa. Somos, mercê das circunstâncias histórico-culturais, muito mais lusógrafos que lusófonos. Penso nas duas línguas e, à luz da filosofia cartesiana, existo nas duas línguas. Eduardo Lourenço dizia que «Quantas mais línguas falamos, mais pátrias temos». É um conceito de multiculturalidade profundamente atualizado do nosso mundo global.

2.

A compreensão do povo não se resume à mera questão do idioma, até porque o povo cabo-verdiano, depois da independência nacional e com o sucesso da universalização do ensino, aliado à mediatização e da força da administração pública, flui relativamente à-vontade nas duas línguas. Fá-lo em assombrosa assimetria. Escreve e lê melhor em português, pensando e falando melhor o Crioulo. Naturalmente que fala melhor o Crioulo, basta estarmos atentos ao linguarejar meio desastroso do Português, por exemplo, no Parlamento. Mas não há isso hoje do Português como uma imposição colonial. De modo que o povo, dessa perspetiva, não se traumatiza, nem se amputa quando o escritor apresenta o texto em língua portuguesa. Afirmá-lo seria a tal falácia de alguns intelectuais que inventam o inferno para laborar sobre o demónio. O que há é uma covardia de uma elite que, migrada em partidos políticos, em funções no funcionalismo e em grémios empresariais, não se dá ao trabalho suficiente e incisivo de romper com a mediocridade do Crioulo com o estatuto extraoficial. Pelos sinais, as coisas começam a mudar, havendo já a criação da Comissão Nacional para as Línguas. Está-se a trabalhar em prol de um consenso alargado entre as forças políticas e a sociedade civil para a oficialização do Crioulo, em Cabo Verde. Oxalá seja desta. Alarms just went off.

 

* poeta e cronista

 

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