A voz de quem?

Inês Santinhos Gonçalves

Comentava há dias o académico Eilo Yu, que antes de se avançar para uma mudança estrutural do sistema eleitoral, se devia começar por exercer em plenitude as potencialidades que este oferece. É uma opinião partilhada por várias pessoas e que merece a nossa atenção.

Pessoalmente, não tenho grandes dúvidas que o sistema não só está viciado como foi criado especificamente para não funcionar. Mas avancemos. Diz Eilo Yu que o Governo devia apostar numa maior comunicação com a população e, em tempo de eleições, Chui Sai On devia falar à população, pois mesmo sendo apenas o colégio a votar, os restantes devem também sentir-se envolvidos no processo eleitoral.

Uma boa maneira de o fazer, partindo do princípio que o colégio eleitoral é um quórum representativo, seria ouvir quem vota – feitas as contas, cada membro do colégio representa mais de 1500 habitantes de Macau. Acontece que não só o único candidato não diz nada, como o eleitorado nada pergunta. Se são estas as pessoas que nos garantem terem sido escolhidas para nos representar – alegando que não é preciso mais para que isto seja considerado uma democracia – então seria simpático que nos dissessem o que pensam.

Para um jornal, não é fácil entrevistar um membro do colégio eleitoral. As negas sucedem-se, tornando-se claro que o enorme privilégio que têm não se consubstancia em qualquer sentido de missão ou serviço público.

Há excepções. Recentemente, o jornal Hoje Macau entrevistou um dos novos membros, Maria do Carmo Madeira Carvalho, eleita pelo subsector desportivo. O que a nova eleitora tem a dizer é que não gosta de manifestações, que o Governo está disponível para ouvir as pessoas e que, no que toca aos problemas da habitação e da saúde, “todos temos momentos altos e baixos”. Ficamos todos mais descansados.

O colégio eleitoral tem a obrigação de ser a voz do povo. Perguntar, exigir, encostar à parede. O candidato a Chefe do Executivo deve sentir-se impelido a dizer mais – estabelecer a habitação e transportes como problemas prioritários a resolver é apontar o óbvio; queremos é saber como.

Porque é que nada disto acontece? Porque, afinal, o sistema não é feito para funcionar. Os 400 escolhidos não o são por serem os mais esclarecidos ou formados. São antes quem já, à partida, apoia o poder estabelecido – sendo que os seus interesses são opostos aos da maioria. O colégio é o menos representativo dos grupos porque é composto por uma elite empresarial e social que tudo tem a ganhar com a manutenção de um status quo pouco ou nada útil para a maioria. Habitação? Quem faz dinheiro com ela? O colégio não fala porque já está contente. Tudo ficará na mesma.

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