Questões de Tradução: Nada, Vazio ou Não-Manifesto?

Ana Cristina Alves*

É altura de fazer um balanço do ano lectivo que passou. Encerra-se para férias com uma questão de tradução.

O que escrevemos, proferimos e, sobretudo, como traduzimos deve ter algum peso ontológico. As palavras não estão aqui para enfeitar pensamentos, elas traduzem e dão corpo às nossas ideias. Enquanto não existem concretamente, constituem em potência, à sã maneira aristotélica, mas também leibniziana, mundos possíveis. Certas vezes expressam, concretizam possibilidades e, na maior parte das situações, criam ambiguidades, vários registos de sentido e a multiplicação dos mundos possíveis.

Será que aguardam num mundo das ideias por poderem vir à luz? Ou simplesmente acontecem, acompanhando os ritmos de vida e dos pensamentos dos autores, co-autores e tradutores.

O vazio é um dos conceitos mais polémicos, sobretudo quando aplicado ao universo legal.

O vacuo legis (zhenkong真空) abre infinitas possibilidades, dependendo da habilidade, imaginação e criatividade dos que interpretam as leis e os regulamentos ou, no caso específico, a ausência delas. O vazio é ainda aplicado a leis num sentido pejorativo, por exemplo em regulamentos sem efeitos práticos (kong wen 空文).

É bom chegar a um espaço por legislar. Em termos filosóficos é mesmo o Paraíso, uma atmosfera onde se pode respirar à vontade e, por isso, o vazio (kong 空) se confunde no dicionário com os discursos visionários ou apenas sonhadores e ocos (sixiang kongxu思想空虛), mas ainda com a força aérea em sentido concreto, aquela gente que voa pelos céus (kongjiangbing, kongjun空降兵、空軍), e abstracto, com a força geradora de infinitas possibilidades.

Kingxiangjia (空想傢) tanto pode ser o visionário como o alienado, por isso há que atender aos sentidos negativo e positivo do conceito de vazio: se para uns é uma palavra que abre uma paisagem celestial, para outros não passa de conversa da treta (konglun 空論).

No Clássico da Via e da Virtude (《道德經.十一), o capítulo 11 é expressamente dedicado ao espaço de infinitas possibilidades, aquele que existe em potência e ainda não passou a acto.

 

Trinta raios convergem para o eixo da roda.

É do não- Manifesto () que o veículo recebe a sua utilidade.

Molda-se o barro para fazer os recipientes

É do não-Manifesto () que os recipientes recebem a sua utilidade.

O quarto tem portas e janelas.

É do não-Manifesto que o quarto recebe a sua utilidade.

Assim é do Manifesto () que se retira o proveito

E do não-Manifesto a utilidade.

 

(三十輻共一轂/當其無/有車之用/埏埴以爲器/當其無/有器之用/鑿戶牖以爲室/當其無/有室之用/故有之以爲利/無之以為用)

Segui Cláudia Ribeiro (2004) no que se refere ao conceito de Wu (), que foi traduzido por não-Manifesto, enquanto António Graça de Abreu (2013) optou pela tradução de vazio e D.C. Lau por nothing (nada).

Dos três caminhos seguidos para a tradução do carácter em causa, o menos feliz, a meu ver, foi o de D.C.Lau, porque nada não desperta a ideia de uma folha em branco onde possam ser desenhadas inúmeras paisagens.

Já a opção de Graça de Abreu por vazio, sobretudo no sentido positivo do termo, me parece mais em harmonia com a ideia de surgimento e/ou construção dum mundo possível. Ainda assim, esta opção corre o risco da palavra ser interpretada na sua acepção negativa, numa leitura apressada ou demasiado literal.

O não-Manifesto é a tradução que melhor reflecte a ideia de potência aristotélica, mesmo em termos jurídicos, quando está em causa o vacuo legis (真空). Quantas vezes ao recorrermos ao conceito de vazio legal, as nossas expectativas não são as de preencher o mais rápido possível aquele espaço em branco, que se tornou extremamente útil para dar corpo a uma ideia, ou melhor dizendo, a um ideal?

O vazio legal, ou, num novo registo, o não-Manifesto legal(無文) viabilizará a criatividade em termos sociopolíticos, fazendo jus ao louvor de Wu realizado pelo pai do Taoísmo, enquanto complemento do Existente (you 有), sem o qual aquilo que existe perde a sua força dinâmica e criativa, a possibilidade de se arejar, renovar e recriar.

 

* Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades

 

Bibliografia

 

Abreu, Graça de António. 2013. 《老子.道德經》Laozi.Tao Te Ching. O Livro da Via e da Virtude,Lisboa: Vega

Lau, D.C. 2012. Tao Te Ching. A Bilingual Edition, Hong Kong: The Chinese University Press

Ribeiro, Cláudia. 2004.《道德經》Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Edição Bilingue. Mem-Martins: Publicações Europa-América

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