Um candidato armado

Sónia Nunes

O tempo, ah, esse excepcional conselheiro, serviu de lição aos que têm essa ideia radical de que o exercício de direitos políticos não deve estar reservado a uma elite. A reforma feita em 2012 acabou por mostrar que a expansão de um sistema antidemocrático foi de facto a melhor opção para Macau: temos, por fim, um candidato à altura das eleições para o cargo de Chefe do Executivo. Refiro-me, claro está, a Wong Wai Man, presidente da espectacular Associação dos Armadores de Ferro e Aço e activista de pequenas causas.

Tal como as eleições – dos membros do colégio eleitoral e daqui para o Chefe do Executivo – Wong Wai Man é um falso mas bem intencionado candidato a Chefe do Executivo. A segunda grande vantagem do representante dos armadores de ferro e aço (sector injustificavelmente subvalorizado na sobrevida política local) é não ser eleitoralista. É vê-lo, todo sorrisos e declarações públicas, em frente ao mercado da Areia Preta, que fica ali como quem vai para os antípodas da povoação dos 400 membros da Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo. Wong Wai Man – que, como por certo se recordam, foi também um candidato ímpar à Assembleia Popular Nacional – não está à caça de votos. Está a insurgir-se lá a maneira dele contra o “pequeno circulo de eleição” do Chefe do Executivo e já recolheu 66 assinaturas de perfeitos anónimos que têm tanto direito a votar quanto as 400 pessoas escolhidas para fazer parte do colégio eleitoral. É nisto que Wong Wai Man acredita – o manifesto político e ideológico mais relevante destas eleições veio do presidente Associação dos Armadores de Ferro e Aço, o que deve ser motivo de orgulho para qualquer coração democrata com fascínio pelo teatro do absurdo, como o meu.

Ainda no reino do simulacro, o mandatário de Chui Sai On, Vong Hin Fai, sentiu-se na obrigação de explicar por que só conseguiu 83 por cento dos apoios do colégio eleitoral. A intenção, nunca declarada, de impedir uma segunda candidatura não deve ser confundida com despotismo – é um acto de benfeitoria, de generosidade, com o nobre intuito de não confundir os eleitores na escolha. Façamos agora uma pausa para recordar o momento alto das eleições de 2009. Exacto: a inesquecível entrada em palco de dois funcionários públicos, de fato domingueiro, que tiveram a fineza de explicar como um carimbo e um boletim de voto com um quadrado se complementam.

Vamos dizer que Wong Wai Man (ou qualquer outra pessoa) pode conseguir recolher as 66 assinaturas que precisa para ser candidato a Chefe do Executivo. Será um esforço hercúleo. Como lembrou Vong Hin Fai os 69 membros do colégio eleitoral são, à semelhança dos restantes 331, são “amigos” de Chui Sai On e não será fácil falar com eles. Além das notáveis diferenças entre este Verão e o de 2009, nesta lamentável falha da equipa de candidatura não será inocente o aumento do colégio eleitoral.

A entrada de mais 100 pessoas no grupo tornou estas eleições muito mais renhidas do que há cinco anos. Basta pegarmos no exemplo de Maria do Carmo Madeira de Carvalho, presidente da Associação de Badminton e uma recém-chegada ao colégio eleitoral. É uma mulher de ideias fortes (entende que as manifestações são uma má influência para os jovens e que “todos temos altos e baixos”), mas é sobretudo honesta e frontal: teve a coragem de admitir que não domina as questões políticas. Está bom de ver que não é fácil contactar com eleitores com este tipo de perfil – nem para a equipa de Chui Sai On nem para Wong Wai Man.

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