Ditadores e seus afins

Maria Caetano

Com a lusofonia depreciada pela entrada da pena de morte, tortura, ditadura e vários tipos de violações aos direitos humanos na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, por via da Guiné Equatorial, e ainda incrédulos com a aceitação da Coreia do Norte no grupo de combate e prevenção do branqueamento de capitais da OCDE, verificamos que de tudo um pouco é possível. Não há moralismo que nos livre de assistirmos à decadência ostensiva das organizações internacionais, apontando para dizer o que está mal.
Parece fútil, hoje, apontar princípios elevadores. Na infância berraríamos que não é justo, enquanto na idade adulta nos conformamos a desígnios ditos pragmáticos – e aceitamos isso como uma marca de maturidade dos indivíduos, dos povos e das organizações, um suposto contrário da ingenuidade improdutiva. Temos afinal um pássaro na mão, ainda que estrangulado e moribundo. Na verdade, ninguém quer verdadeiramente ver dois pássaros a voar.
Este tipo de realizações humanas em organizações fundadas sobre ideias esquecidas (o cínico perguntará se alguma vez existiram) têm a particularidade, aqui, de acontecerem de forma obscura, mas dita consensual, sem qualquer marca de discussão, com uma reverência injustificada e servil. Portugal, por exemplo, alegou o seu complexo pós-colonial, a culpa, e as conveniências de não levantar ondas para não piscar os olhos perante a entrada abrupta da Guiné Equatorial na CPLP – à revelia dos habituais processos de votação e discussão. Participou do consenso de forma mais ou menos envergonhada.
Da entrada da Coreia do Norte no Grupo Ásia Pacífico da OCDE sabemos ainda menos. Não fossem as agências de notícias sul-coreanas e a informação sobre a decisão tomada em Macau ter-nos-ia passado ao lado. Uma reunião de alto nível que decide a integração numa organização internacional do regime mais fechado e opressivo do mundo – com a Guiné Equatorial em segundo lugar, como muitos afirmam – produziu pouco mais que palavras de circunstância do secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, prometendo muita e da boa velha cooperação com todos. Recorde-se que o objetivo do fórum da OCDE é, exatamente, promover a transparência como forma de combate à lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e, mais recentemente, da proliferação nuclear.
Macau, vá-se lá saber porquê, oferece o manto de opacidade necessária para que tudo isto passe sem alarido, tal como Timor-Leste se passeia de mão dada com Teodoro Obiang, espezinhando valores e protocolos. São coisas de indivíduos, povos e organizações muito adultas que já não se iludem com vãos sonhos e tentam apenas colher as vantagens possíveis das circunstâncias que se lhes colocam. Há, aparentemente, sítios que mais se prestam a estes convénios de príncipes empenhados nas linhas tortas que provavelmente nunca chegam a escrita direita. Uma provável questão de afinidades.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s