Como um rastilho

Inês Santinhos Gonçalves

Muitas vezes se duvida da validade das instituições internacionais por não serem vinculativas, por terem agendas, ou até por se ofenderem facilmente. Mas a verdade é que a exposição internacional resulta muitas vezes em pressão e tem efeitos que internamente não conseguiriam ser atingidos. O mesmo se passa com a atenção mediática.

Macau foi sempre ofuscado por Hong Kong, o que em grande parte se justifica – o território acolhe muito mais gente, é um centro internacional financeiro e sempre foi mais reivindicativo e criativo que Macau. Mas a compreensão acaba quando aqui também se batem recordes, quando aqui também se faz história, quando aqui as gentes também se movimentam e fazem pedidos ousados na grande China.

Macau nunca poderia ter manifestações ou uma vigília por Tiananmen da dimensão das de Hong Kong, mas isso não quer dizer que não tenha tido as maiores da sua história recente. E se é vergonhoso que jornais que são referências mundiais como The New York Times o ignorem – no dia 4 de Junho o diário escrevia que Hong Kong era o único território chinês onde se organizavam homenagens –, mais incompreensível é que publicações do território vizinho o façam, como foi o caso do South China Morning Post.

Esta crítica estende-se, com todos os acrescentos históricos que merece, a Portugal, um país que nada sabe, nada fala e nada pergunta sobre Macau, a não ser quantos milhões se fizeram nas mesas de jogo.

Aqui neste canto do mundo que deixaram de forma tão despreocupada dão-se passos históricos e luta-se por um sistema democrático que Portugal nada fez para preservar. Há uma geração pós-RAEM que se esfalfa para sair do beija-mão a Pequim. O ano foi, e continuará a ser, quente. E apesar de viverem aqui várias dezenas de jornalistas portugueses com acesso a informação privilegiada (que cederiam de bom grado), em Portugal nem uma linha foi escrita sobre o assunto.

Não é verdade que Macau não interesse a Portugal. Mas é um interesse muito especializado: Portugal olha para Macau como um cofre dourado, uma extravagância de milionário com quem tem uma relação privilegiada. E aqui enviam altos dirigentes para falarem de parcerias económicas e plataformas, intercaladas de palavras adocicadas sobre laços afectivos e culturais.

Portugal não se interessa minimamente sobre o que realmente se passa aqui e que em grande parte ainda lhe diz respeito – 15 anos, afinal, não é nada. Não só a Universidade Católica Portuguesa não se dignou a pronunciar-se sobre o caso de Éric Sautedé como o caso passou quase incógnito nos meios de comunicação.

Agora Macau chegou às páginas do britânico The Guardian e foi tema de editorial do The New York Times. Talvez assim desperte o interesse de jornais portugueses, que tantas vezes decidem o que tem valor pelo que está na moda.

Por cá, espero que o rastilho noticioso não se apague e que ajude Macau a ser mais levado a sério. Esperamos outros jackpots para os próximos 15 anos.

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