Entretanto, por cá…

[Territórios da Língua]

 

Ana Paula Dias*

Atualmente, são muitos os países que encaram a aprendizagem de línguas estrangeiras como chave para o desenvolvimento económico, mesmo que a sua primeira língua seja o inglês. Sentem que não podem nem devem apoiar-se apenas na sua língua nativa. Nesses países, a definição de políticas de língua como parte das estratégias de desenvolvimento da força laboral é uma parte importante do discurso nacional. Porquê?

A Austrália, por exemplo, levou a cabo um debate sobre a necessidade de os alunos estudarem idiomas asiáticos. O mais recente desenvolvimento aconteceu em outubro de 2012, quando a primeiro-ministra australiana Julia Gillard sancionou o Asian Century White Paper, que lista os objetivos-chave para permitir ao país tirar proveito dos mercados asiáticos próximos. O documento defende que os alunos tenham a oportunidade de estudar uma das seguintes quatro línguas ao longo do seu percurso escolar: chinês (Mandarim), hindi, indonésio e japonês.

A esta proposta seguiu-se uma torrente de artigos, com a maioria dos especialistas a concordar, embora citando enormes obstáculos, incluindo o preço, para a implementação de tal exigência. O perito em estudos asiáticos Kent Anderson, da Universidade de Adelaide, refere que será uma tarefa difícil, mas crucial: ‘”What is really important about learning a language is learning empathy for someone else, and learning empathy for another culture. You are able to understand, which will make you a better business person and makes it easier to have longer-term relationships.” (The Sidney Morning Herald, 4/11/2012). Entretanto, o ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd exortou as empresas a definir cotas sobre o número de funcionários a contratar que falem um idioma asiático, considerando que isso iria incentivar os alunos a aprender essas línguas (aliás, anunciou esta ideia num discurso na China, proferido em mandarim fluente).

Na Escócia, um estudo recente do British Council (da autoria de Teresa Tinsley e Philip Harding-Esch) revelou o declínio no estudo de línguas estrangeiras, bem como uma tendência das empresas escocesas para exportar apenas para países de língua inglesa. Não querendo deixar escapar oportunidades económicas, o governo escocês respondeu com uma análise das necessidades nesta área. Atualmente o estudo de uma segunda língua é exigido a partir do 6º ano, mas uma nova proposta surgida na sequência da avaliação da situação determina o início de uma terceira língua no 5º ano. Nesta alteração da política linguística foram tidos em conta dois aspetos: a capacidade do currículo e do papel das línguas no apoio à economia. O ministro da Educação Alasdair Allan referiu então: “This government has set an ambitious target to increase the value of our international exports by 50% by 2017, and ensuring our workforce has the right skills to compete internationally will play an important role in achieving this.”, acrescentando: “This is why we are committed to reinvigorating language learning and helping more Scottish pupils learn a second language such as French, German, Spanish or Chinese in primary school.” (BBC News, 27/11/2012)

A vizinha Inglaterra, também em resposta a um estudo que conclui que os seus alunos são menos inclinados a estudar uma segunda língua em comparação com seus pares europeus, exigiu que todos os estudantes do ensino primário aprendessem uma segunda língua a partir de 2014. As escolas têm a opção de oferta de um dos seguintes sete idiomas: francês, alemão, espanhol, italiano, mandarim, grego antigo e latim. Num comunicado do Departamento de Educação do Governo do Reino Unido (de 17/11/2012), Elizabeth Truss, ministra da Educação, afirma: “We must give young people the opportunities they need to compete in a global jobs market—fluency in a foreign language will now be another asset our school leavers and graduates will be able to boast.”

Da mesma forma, na República Checa os estudantes são obrigados a estudar uma segunda língua a partir do 3º ano (a maioria escolhe Inglês). A terceira língua costumava ser opcional; no entanto, o Ministério da Educação, Juventude e Desporto checo anunciou em janeiro de 2013 que passava a ser obrigatória a partir do 8º ano ou mesmo antes.

Na maioria dos países asiáticos as crianças começam a aprender uma segunda língua – geralmente o inglês – no ensino primário. Tal não significa forçosamente que os progenitores estejam satisfeitos: no Japão, um inquérito recente revelou que 90% dos pais não estão contentes com aulas de inglês dos seus filhos. Os pais sentem que estes não adquirem suficiente conhecimento prático da língua e que não têm a oportunidade de falar na sala de aula – mas o mesmo estudo mostrou que os pais são altamente favoráveis à aprendizagem de uma segunda língua e à formação de alunos globalmente competentes (Japan Daily Press, 4/12/2012).

Similarmente, na China os estudantes podem aprender inglês na escola a partir do 3º ano, mas muitos pais sentem que isso não é suficiente. Assim, os alunos são enviados para dispendiosos centros de língua para aprender a língua inglesa depois das aulas e cada vez há mais estudantes do ensino secundário mandados para os Estados Unidos para estudar. De acordo com o China Daily (de 16/08/2013), 65 jovens do ensino secundário estudaram nos EUA em 2006 e esse número aumentou para cerca de 6725 no ano lectivo de 2011-2012. Os pais sentem que os seus filhos precisam ser capazes de competir internacionalmente quando crescerem e que carecem de uma perspetiva global.

Entretanto por cá, com todas estas iniciativas mundo afora… Macau pode dar-se ao luxo de continuar a ter “ouvidos monolingues”?

* Doutoranda na Universidade Aberta

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