Não para (nem de) principiantes, este Brasil

Márcia Souto*

“O Brasil não é um país para principiantes.” Essa frase, atribuída a Tom Jobim, serviu para descrever um certo Brasil de anos atrás, desorganizado e atónito diante das suas enormes contradições. Hoje, por outros e mais nobres motivos, o Brasil continua a não ser um país para principiantes.

A sociedade brasileira evoluiu e, consciente de sua complexidade, não pode permitir que se lhe façam análises ligeiras e não raro baseadas em antigos preconceitos. O Brasil encontra-se em processo histórico de mudança, o que talvez venha a assustar os fatalistas.

A realização do Mundial de Futebol, afora o megalómano bordão “Copa das Copas”, contrariando muitas análises pessimistas, correu bem, sobretudo fora dos relvados. Deu visibilidade mediática ao Brasil e confirmou, uma vez mais, já que gere anualmente o maior evento cultural do planeta, o Carnaval, a capacidade organizativa, inclusive do caos, que não é variável negligenciável hoje na economia global. Agora, passadas as festividades futebolísticas, a vida continua e mais uma vez vozes analíticas vislumbram o rescaldo do Mundial a respingar na política. Ao contrário, penso que o povo brasileiro já aprendeu o quão pernicioso é misturar alhos com bugalhos, digo: política com futebol, embora em todo o mundo os políticos bem que se tentam amarrar a todo e qualquer sinal positivo que um dos desportos mais popular do mundo pode vir a proporcionar.

Mesmo o mais estrondoso e humilhante placar (o vexatório 7X1) não me parece que dará amargos frutos que possam abalar a democracia brasileira. Futebol é futebol e há vida (e em abundância) além dos estádios. Por mais que doa e incomode o massacre alemão sobre a seleção canarinha, por mais que se sintam tristes e se emocionem com o pranto do futebolista David Luiz e aceitem suas desculpas justificadas pela angústia de não ter podido dar ao “povo sofredor” alguma alegria, os brasileiros sabem que a vitória que mais interessa não é a dos relvados. Por mais que uma “elite branca” ou de qualquer outra cor do arco-íris vaie a Chefe do Governo nos estádios, a sociedade brasileira sabe que o espetáculo da Copa do Mundo de Futebol é só isso: a Copa do Mundo de Futebol e que, “graças a Deus”, volta a acontecer a cada 4 anos, renovando assim as chances de nossa equipa ser campeã.

Ouve-se muito por aí que as eleições presidenciais de outubro próximo no Brasil terão seu resultado condicionado pelo mau resultado que a seleção brasileira de futebol prestou neste mundial ou que o futuro da atual presidenta e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, está ligado ao balanço que a FIFA fará desse campeonato. País soberano, dinâmico e, hoje, emergente, o Brasil não se condiciona ao “Padrão FIFA”, como algumas análises pretendem, estas sim no respaldo da infeliz frase de General De Gaule em como aquilo “não é um país a sério”.

Não sendo país para principiantes, creio que a complexidade do Brasil vai muito além desses prognósticos. Cada vez mais atenta ao que se expande pelos domínios do umbigo, parece-me que a sociedade brasileira consegue ir além dos simplismos redutores. Na sequência da destruição de autocarros ou de montras em manifestações que pecam pelo abandono do pacifismo, quebrar-se-ão o silêncio e o grito cegos. O Brasil, minha gente, está a amadurecer e a apreender que ser a 7ª economia do mundo só se justifica se o Índice de Desenvolvimento Humano e o Índice de Gini acompanharem esta alavancada. Como amiúde se justifica que ocupe o assento merecido no Conselho de Segurança da ONU.

Os brasileiros recusam, com toda a legitimidade, o cognome de Belíndia, expressão usada para descrever a paradoxal realidade desse país em que os impostos são semelhantes aos cobrados na Bélgica, mas o padrão de vida próximo ao da Índia. Ser um dos BRICS só interessa, se se partir logo o bolo crescido, negando a máxima do antigo Ministro da Economia que pedia ao povo paciência, pois seria repartido o bolo após este crescer. Pois, sim, já cresceu e é hora de todos dele se alimentarem. Em verdade, sabe-se que só alimentado, nos melhores padrões de qualidade, o crescimento vira desenvolvimento.

Os anfitriões do Mundial 2014, após o desaire nas meias-finais, torceram pelo seu carrasco, a Alemanha, no jogo da final. Mais do que a pueril picardia contra os hermanos argentinos, parece possível uma leitura mais ampla desse fato. O país, que ri de si mesmo, consegue alcançar a necessária autocrítica e reconhecer que, depois do cabalístico placar, é hora de voltar à realidade, reconhecer a derrota e derrubar o Muro de Berlim que separa a pequena Bélgica da imensa Índia que habita cada estado brasileiro. Diria que, já não sendo país para principiantes, impõe-se que não seja de principiantes.

*cronista

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s