Zen limites

Filinto Elísio*

 

Caleidoscópio

Está assente, posto quase La Palisse, que os pequenos estados insulares precisam de ancoragem em espaços económicos mais firmes e alargados. Os mesmos anseiam mesmo um continente, distante o suficiente que lhes permita a identidade (e, aqui baixinho, a soberania possível) e próximo o suficiente que lhes permita integrar no livre comércio de produtos e/ou serviços. Assim, os pequenos estados insulares devem poder olhar para si-próprios (e para o Cosmos) com alguma complexidade, assumindo a estratégia de mobilidade e da multipolaridade. Se o isolamento se aponta como fora de qualquer cogito, também ancoragem exclusivista, quase sempre monolítica, não nos parece ser virtuosa. O espaço de manobra tem de ser alargado, plural e diversificado, servindo-se de trânsito para uns e outros, e abrindo-se ao diálogo com todos. No caso de Cabo Verde, para além de pequeno estado insular, grande nação diaspórica, venham a nós todos os continentes, todos os países, todos os povos, todas as culturas, todas as comunidades. Ancoremo-nos, sem parar a viagem, “pensando com as nossas próprias cabeças”, isto é com polissemia, nesse caleidoscópio de tudo.

 

Zen limites
1.

Fala-se das perspetivas futuras da ordem política internacional, para a economia mundial e o continente africano. Em verdade, não se fala tanto da nova ordem a instituir a igualdade da troca, o comércio justo e a multipolaridade efetiva, baseada no respeito e soberania, das relações internacionais. Qual o estatuto e o papel de Cabo Verde, para além da ambição de janela da e para a África, na atual conjuntura mundial? Poder-se-á, contextualizando o tema, resignificar o conceito de “país geoestratégico” das nossas ilhas? Neste processo de encontro, reflexão e criação de espaços de ação o que importa vir à colação? Para além do palco que aí vai e é importante que vá, a sociedade cabo-verdiana também precisaria aprofundar as suas reflexões, para além das ancoragens fabricadas e do “job description” de país útil, já que o tema exige posturas de caráter não confessional, não institucional e não oficial. Venha este necessário debate (tratando-se da construção de um outro mundo) ganhar as ruas, minha gente!

2. As nossas sociedades têm uma dívida histórica para com a educação. Hoje, mister que esteja no centro das nossas preocupações o saldar a dívida para com os educadores e os educandos, bem como para com todos quantos pertençam à cadeia ensino/aprendizagem. Torna-se crucial colocarmos na agenda reformas estruturais mais aceleradas, mais atualizadas e mais compaginadas com o desenvolvimento (não apenas o crescimento, saiba-se). Uma inovação pedagógica (com renovados padrões de qualidade científica, tecnológica e humanística), alavancadora de novos ambientes educativos, novos diálogos em sala de aula, novos instrumentos de ensino (com as novas tecnologias, quais sejam tabletes com acesso à rede, quadros interativos e bibliotecas online) e novos paradigmas do apreender a aprender. A partir do educando, montar processos de aprendizagem democráticos, participativos e interativos. Por conseguinte, precisamos, na minha modesta opinião, orientar a educação não apenas no vetor formador da mão-de-obra capacitada e com know-how para a vida profissional, mas sim naquele capaz de orientar homens e mulheres (felizes, livres e dignos) para o futuro. Só com uma permanente conceção dialética, poderemos, a cada tempo histórico, reduzir, saldando sempre, a dívida para com a educação

Cornucópia 

Somos a resultante do nosso tempo e espaço. Estranha cornucópia: intervalos e aproximações, mais ou menos insinuações existenciais. Somos, ora equações, ora inequações, tão-somente coisas insondáveis. E, mesmo quando nos refletimos ao espelho da clareza, somos recônditos que desconhecemos. Triste de quem, no engodo dos axiomas, se afirma dono da Razão e da Verdade, como se tais perceções por voto e/ou veto, decreto e/ou decreto-lei, ditas no altar e/ou no palanque, esbatessem as nossas dúvidas primordiais. Havendo aguaceiros na alma, tocamos ao cinzento que somos um simulacro de amor abrasador, sem paninhos quentes no corpo a amainarem assaz nevoeiro. As palavras daqui e d’alhures, por obrigações de purgar pecados, fazem de nós peregrinos do tempo e do espaço. Quem sabe, fazem de nós históricos. Quiçá, apenas histéricos.

 

*cronista

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