Façam o favor de discutir

Inês Santinhos Gonçalves

Assumo-me aqui como grande fã da publicidade institucional de Macau. Aprecio em qualquer molde, televisivo, radiofónico, escrito. O monstro azul da corrupção que mordisca as Ruínas de São Paulo, os diálogos sentidos entre mãe e filho sobre a passagem para o ensino superior, as famílias que limpam o cocó dos cães com jornais, as donas-de-casa que pedem ketchup emprestado às vizinhas.

O leitor notará o meu sarcasmo, evidentemente. Mas não quero com isto dizer que não valorizo as campanhas de sensibilização e educação cívica – apenas questiono a infantilização atroz dos cidadãos e o artificialismo dos diálogos, ao ponto de se tornarem caricaturas. No entanto, um anúncio em particular tem saltado à vista – um anúncio que em ano de eleições muito diz do modelo de sociedade que o Governo quer estabelecer.

A publicidade é do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, que tem vindo a promover uma série de anúncios em torno da temática ‘sociedade harmoniosa’. A acção passa-se numa sala de leitura, onde dois homens lêem o jornal lado a lado. Uma notícia terá causado polémica, já que no quadrado seguinte, os dois exibem expressões vagamente irritadas e dizem, em balões de diálogo pontiagudos “Não concordo!” e “Eu concordo!”. Especulemos que se trata de um artigo sobre a eleição do Chefe do Executivo, quiçá até sobre a escolha de Eva Lou para a equipa de candidatura. Talvez um defenda Chui Sai On, dizendo que em equipa vencedora não se mexe; o outro pode sentir-se indignado que a mesma pessoa que esteve no centro do escândalo das eleições de 2009 seja novamente chamada para junto do Chefe.

Imaginemos que os dois leitores de jornais envolvem-se numa discussão sobre política local. É o sonho de qualquer jornalista que se preze: os jornais são lidos e geram opiniões e debates. É a democracia no seu esplendor, em formato de banda desenhada. Mas tudo acaba quando uma bibliotecária, com uma ar ligeiramente agastado, se aproxima do par e lhes corta a retórica: “Não discutam, devem respeitar e compreender as opiniões diferentes de cada um”.

Os dois leitores coram perante o ralhete. “Desculpe se não me fiz entender”, diz um. “Desculpe, agora compreendi”, responde o outro. Acabou-se a discussão e regressa a harmonia. É, segundo o Governo um caso de sucesso. Uma versão ilustrada do tradicional ‘come e cala’, mas administrada por uma bibliotecária – uma nuance nova e altamente irónica, tendo em conta a carga simbólica de um espaço como uma biblioteca.

Em vésperas de eleições e em pleno ambiente de contestação política, reforça-se a ideia de que o debate, o confronto, a discordância só levam à desarmonia e ao mal estar. Se o Governo realmente estivesse interessado em promover um apurado sentido cívico e político (esse que se diz que a população não tem e por isso não é capaz de bem depositar o seu hipotético voto), estaria a organizar mesas redondas nas escolas e nas associações, estaria a aplaudir referendos porque quer mesmo saber a opinião da população, quereria ouvir todos os argumentos – esses que só se apuram no confronto com outros.

A harmonia, no seu significado real, é um estado de comunhão a que se chega quando se ultrapassam os problemas. Não é sinónimo de silenciamento das discordâncias, de simulação de consenso, não é a ausência de barulho para não perturbar Pequim.

Deste lado, fazemos a nossa parte. Esperamos que as páginas deste jornal continuem a dar aos leitores motivos para discutirem. Da harmonia, salve-se quem puder.

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