Sala de espera

Sónia Nunes

O despertador. Meia hora mais cedo para cobrir o tempo de espera pelo autocarro e ainda assim sempre atrasado, como o do coelho da Alice – tenho sono, é a metáfora possível. O café acabou. Compras. Outra vez. Ainda a conta da luz, todos os anos mais cara que aqui até o ar é condicionado. É dia 15 e metade do salário já foi. Antes na renda do que na farmácia. Cheguei à paragem. Nada de 9A. Nem de 9. É hora de ponta, devia ter acordado mais cedo. Às sete. Bem-vindos à nova era das viagens em transportes públicos de um quilómetro e pouco, 15 minutos a pé. O Governo está atento.

Uma corrida desajeitada e consigo estar no centro de saúde à hora cerca, 8h30, mas já tarde demais para me livrar de uma manhã enfiada numa sala de espera a olhar para um ecrã com números. Estão umas 15 pessoas à minha frente. É consulta externa, marcada há mais de um mês. Só há uma médica que fala inglês e faz os possíveis, como todos os médicos com quem me tenho cruzado no serviço público de saúde. E enfermeiros. São poucos para esta sala de espera. Já são onze horas. Continuo sem consulta. Eu e os outros.

Por esta altura, o antigo secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, que teve dez anos com a pasta da saúde, apresenta-se de novo como candidato a Chefe do Executivo. O único. Por mais cinco anos, sem que tenha cumprido o grande projecto do primeiro mandato: um novo hospital. E lá tenho de ir ao privado, não consigo fazer o exame em tempo oportuno no serviço público. É muita gente em lista de espera.

As receitas da Administração aumentaram 13 por cento no primeiro semestre desde ano: 83.441,1 milhões de patacas. O superavit de Macau é o segundo maior do mundo. O Governo envida esforços. Era, lembram-se?, uma nova fase no desenvolvimento de Macau, de política social, depois de uma década de jogo. O cheque do Governo deve estar a chegar, 5400 patacas. É mais do que há cinco anos, mas cobre menos de renda. O mercado é livre. Vão ser construídas mais 32 mil casas – num terreno onde estava previsto construir 18 mil. Não é propaganda. É o milagre da multiplicação. Como nas creches: reduz-se a área útil por criança, de dois metros quadrados para 1,8. Mais 440 vagas. Inovação na continuidade.

Dentro de horas fico a saber que Chui Sai On estará neste momento a dizer que enfrentou “problemas e dificuldades imensas” e é incapaz de entrar auto-avaliações. Os outros que o façam, diz. A ser verdade que tem interesse em ser avaliado por quem governa, os resultados do referendo informal sobre a eleição do Chefe do Executivo são de ouro. Sem outros candidatos e uma campanha eleitoral dirigida a 400 pessoas e já resolvida, a iniciativa do campo pró-democracia é a única aberta possível para censurar um Governo não eleito que assiste passivo à contestação popular – com a certeza de que a lei eleitoral não proíbe a realização de sondagens ou inquéritos durante a campanha eleitoral. A única regra que existe é que os resultados sejam divulgados no dia seguinte ao da eleição. E vai ser cumprida. Continuo na sala de espera.

 

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