A universidade e as últimas tendências

O liberalismo comprometido de Macau, aquele mesmo que facilita monopólios e vive de um regime de concessões públicas não raras vezes “viciadas”, apela tanto como a ideia de que em certos sectores a autonomia da Administração está para sinónimo de independência e eficácia. Parece que por antítese simples, ao se afastar a “intervenção” pública na economia e noutros serviços, temos um mercado e uma sociedade livres – mesmo que todas as circunstâncias nos indiquem que não é assim.

Os nomes são palavras, palavras, palavras, como as outras, cuja sedução se devia quebrar perante simples evidências. Liberalismo e autonomia são palavras como as outras, mais ou menos verdadeiras, e não é com qualquer pensamento infantil que fazemos a magia de proferi-las e realizá-las, como é de ilusão frequente na Macau das muitas palavras e inconsistentes actos.

Desta vez, diz-se, a região vai acompanhar “as últimas tendências” e, alterando o estatuto da Universidade de Macau, conferir-lhe maior autonomia, flexibilidade e uma gestão mais competitiva. À partida, isto significa que o regime orçamental da instituição de ensino superior se deixa de pautar pelo da Administração Pública, com os anos financeiros a adequarem-se aos planos lectivos. E significa também que a Universidade deixa de recrutar como a Administração, ficando livre para escolher os seus professores sem o aval público. O que mais significará, ainda  não sabemos.

Falar das “últimas tendências” é tentador. É o apelo da última moda, do crivo passado e aprovado na academia internacional, mesmo sem que se saiba se cai bem e assenta nalgumas deformidades da academia local. É que as últimas tendências conhecidas das instituições de ensino superior local nada abonam a favor de que se dê rédea solta às administrações universitárias para fazerem o que muito bem entendem – nomeadamente, no que diz respeito ao recrutamento e gestão dos seus professores.

O discurso do secretário Cheong U é simpático. Há controvérsia no mundo académico, suspeitas de falta de liberdade, e muda-se alguma coisa oportunamente: mais autonomia para as universidades. Mas é isso que realmente faz falta? E que tal um pouquinho de transparência e de responsabilidade também?

Lembremo-nos de há quantos anos esperamos pelo novo regime do ensino superior, e também pelo regime de avaliação das universidades. Sim, parece que as instituições têm já vindo a ser alvo de avaliações – é o que consta. Mas alguém conhece os resultados? Alguém os viu alguma vez? Sabemos quais os cursos e instituições que passam e quais os que recebem recomendações para melhorar (falar em chumbos, parece fora de questão)? Nada, zero.

Até aqui, autonomia na educação tem sido mero sinónimo de isenção de responsabilidade pública – e não apenas no ensino superior, mas talvez também em todos os níveis de educação. Queremos mais autonomia para a Universidade de Macau? Talvez fosse de considerar a divulgação dos novos estatutos antes que estes passem a vigorar e se possa debater ainda sobre eles.

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