Quatro regiões, um sistema

Iris Lei

Sinceramente não fiquei surpreendida que o protesto em Hong Kong tenha sido o maior dos últimos dez anos. Aliás, até esperava mais, uma vez que o polémico “livro branco” foi publicado pelo Governo Central pouco tempo antes do 1º de Julho, data em que se assinala a autonomia da RAE concedida pela “sagrada” Lei Básica. Mas prefiro centrar-me nas estimativas divulgadas pelo Governo – 92 mil manifestantes.

Aliás, não sou apenas eu a duvidar do rigor deste número, que muitos cidadãos contestaram na Internet. “Se 92 mil paralizaram Hong Kong, então temos de cancelar o esquema de atribuição de vistos individuais”. Sabemos que no ano passado estiveram em Hong Kong 54.298.804 turistas – quase o dobro de Macau.

Noutro comentário, em que se comparavam duas fotos, lia-se esta legenda escrita em tom satírico: “A maratona [que aconteceu em Fevereiro] teve 73 mil participantes e nós apenas 92 mil”. Segundo os organizadores da manifestação participaram mais de 500 mil pessoas –  o suficiente para encher seis campos de futebol –  que reclamavam uma eleição verdadeiramente democrática do próximo chefe do Executivo, em 2017.

Não consigo deixar de pensar no que significará o número de manifestantes para o Governo Central, uma vez que a imprensa oficial avançou que não importava a quantidade de pessoas a sair à rua.

“A oposição preocupa-se muito com o número de manifestantes, já que as estatísticas que divulgam revelam um valor manipulado e superior ao da polícia (…) Essa informação reflecte de certa forma a atitude de Hong Kong, mas estes dois elementos não são necessariamente equivalentes”, lê-se no Global Times, a publicação do mesmo grupo do Diário do Povo.

Se o número de manifestantes não faz qualquer diferença, então o facto de vir mais uma pessoa não iria acrescentar nada, certo? Então porque razão Chan Wei Ting, activista de Taiwan e uma das figuras-chave no protesto que levou à ocupação do parlamento, foi impedido de entrar em Hong Kong antes de Julho devido a “factores políticos”? Porquê? Porque razão a tentativa de um cidadão de Taiwan para entrar em Hong Kong é “politizada” aos olhos do Governo de Hong Kong e da China Continental? A vinda de turistas de Taiwan e da China Continental não faz parte de um pacto económico que só vai trazer benefícios mútuos?

Felizmente os nossos “representantes” de Macau conseguiram entrar em Hong Kong com sucesso e participar no protesto, expressando o apoio à região vizinha e reiterando o princípio ‘um país, dois sistemas’.

Em face da situação actual, poderia então contestar que a engenhosa ideia talhada pelo grande líder Deng Xiaoping não se adapta à liderança de Xi Jinping.

O número de manifestantes nas duas RAE não faz com que o Governo Central mude de ideias – sejam eles 500 mil ou milhões. Não. Mas caso exista uma conexão entre os três “territórios problemáticos” – Macau, Hong Kong e Taiwan – o “tigre” ficará mais poderoso e talvez a “mosca” seja encorajada a dizer “não” ao partido. Então os problemas serão ainda maiores.

Se fizesse parte do gabinete de Xi, acelerava rapidamente a fórmula “Quatro regiões, um sistema”, só para promover a harmonia e tornar o processo mais simples.

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