Como evitar uma sociedade ao estilo de Hong Kong

Hong Kong people vote in unofficial poll on universal suffrage

 

Iris Lei

 

“Não quero que Macau fique como Hong Kong. Protestar só por protestar, fazer oposição só por fazer oposição”, são os comentários que mais tenho ouvido dos meus amigos. O medo de transformar a “harmoniosa” aldeia piscatória numa cidade caótica com protestos contínuos está de facto enraizado na mentalidade da maioria.

Lembro-me de entrevistar vários jovens depois da retirada do regime de garantias para os altos cargos públicos, alguns responderam que a última coisa que queriam era uma sociedade desordenada, como a de Hong Kong. Um ouvinte de apelido Cheang telefonou para o canal chinês da Rádio Macau na quinta-feira para manifestar repugnância pelo movimento social ao estilo de Hong Kong que, acredita, está a ganhar formar no território. “Macau é uma cidade harmonizada. Por que precisamos de mudar para [uma como a de] Hong Kong?”, perguntou o ouvinte, que falou dos arremessos de “bananas e outras coisas ao Conselho Legislativo”. “O Governo [de Hong Kong] está a desenvolver uma nova cidade para o bem comum dos residentes, mas eles têm de ser fracturantes e destruir… para tentar impedir o projecto”, disse também.

Ninguém pode julgar a opinião deste ouvinte, mas posso ter algumas reservas em relação ao que sugere. Cheang aconselha os residentes, sobretudo os mais jovens, a usar o subsídio de educação de seis mil patacas do Governo para aprender mais e ser mais racional em relação às questões políticas.

Tenho de admitir que os residentes (informados) têm sido assediados por uma miríade de notícias, e é justo dizer que a enchente começou com os protestos de 25 e 27 de Maio.

Desde então, seguiram-se uma série de acontecimentos: o despedimento de Éric Sautedé, que se acredita ser um dos seis académicos reprimidos devido às suas opiniões políticas ou movimentações fora das instituições, claramente atraiu olhares; a discussão sobre a estudante que ergueu um cartaz com a frase “Por favor parem de perseguir académicos” na cerimónia de final de curso, um dos momentos mais solenes para a turma de 2014 da Universidade de Macau, e a acusação de que a universidade interfere com a liberdade de imprensa, impondo medidas de segurança demasiado duras.

Nos temas menos académicos, temos o protesto contra a construção de uma bomba de gasolina na Taipa, perto de uma zona de rebentamento de panchões durante o Ano Novo Chinês. Sem esquecer as 1600 pessoas (e animais) que se manifestaram no sábado pedindo a aceleração do processo legislativo para a protecção animal.

No que toca à saúde, há a situação do rapaz com o cóccix fracturado, cujo estado de saúde se terá agravado devido a alegada negligência médica do hospital público. Na conferência de imprensa onde se expunha a situação e anunciava uma recolha de fundos para ajudar o jovem, uma funcionária do Governo infiltrou-se para conseguir saber mais sobre o caso, uma acção que prejudicou a já mal organizada gestão da equipa dos Serviços de Saúde. Claro que o mais importante é que os mais elevados cuidados de saúde foram prestados ao Chefe do Executivo que sofre de gota. Chui Sai On recupera com rapidez e já foi capaz de se deslocar ao templo.

Por falar em sistema de saúde, o exemplo mais significativo e satírico será a morte do panda gigante e “nosso amigo” Sam Sam, que morreu devido a uma insuficiência renal depois de quatro anos no seu palácio de três mil metros quadrados. Já para não mencionar os sete milhões de patacas que os cofres públicos despenderam para tomar conta destes preciosos presentes oferecidos pela China Continental a propósito do 10º aniversário da transferência de poder.

Não há forma de nos desconectarmos da sociedade como também não nos podemos afastar da política. Se uma sociedade agitada não é o ideal, então por favor aproveitem e valorizem o voto – um direito cívico – e lutem pelo sufrágio universal nas eleições para a Assembleia Legislativa e para o Chefe do Executivo. Um Governo eleito pelo povo levantaria menos problemas do que um eleito Executivo escolhido à porta fechada e com o selo do Governo Central.

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