De cóccix e de louco todos temos um pouco

Sónia Nunes

É altamente irresponsável e prematuro tentar assumir uma opinião sobre o caso que opõe os Serviços de Saúde ao jovem de 17 anos Chan Pou U que se declara incapacitado por ter sofrido uma lesão no cóccix há quatro anos. Estão, portanto, reunidas todas as condições para este texto prosseguir. Há para já duas lições a retirar deste episódio, comuns, de resto, nas alegações e contra-alegações de alegada negligência médica: cóccix escreve-se com dois cês e os Serviços de Saúde de Macau (SSM) são incansáveis amigos da comunicação social, dando mais uma vez provas da incontestável boa relação entre Governo e jornalistas e do grau de aceitação do trabalho da imprensa.

A funcionária dos SS, perdão SSM, deslocou-se à conferência de imprensa convocada para a casa da família de Chan Pou U para “satisfazer as necessidades dos profissionais de comunicação social”. Aqui devemos render um elogio à Administração. A culpa não morreu solteira, como seria de esperar – a culpa é, como está bom de ver, do jornalista.

Ao pedido de uma “resposta em tempo útil”, conjugado com essa impossibilidade filosófica de uma notícia “exprimir toda a situação real da conferência [de imprensa]”, não restou outra saída aos Serviços de Saúde do que entrar à socapa na casa de um doente que os acusa de negligência médica e gravar declarações que seriam tornadas públicas uma hora depois no telejornal. Mais: a conferência de imprensa foi convocada para anunciar o lançamento de uma campanha de angariação de fundos para pagar exames e tratamentos médicos de Chan Pou U em Hong Kong. O que é que os Serviços de Saúde têm a ver com isto? Nada, o que só demonstra a genuína preocupação do Governo com este caso.

Ainda assim, o director do hospital Conde de São Januário admitiu que “há espaço para melhorar”, do português “errámos, mas não estamos arrependidos e vamos voltar a fazer o mesmo”. As expectativas dos jornalistas em relação ao Governo são iguais às de qualquer outro cidadão: que tenha uma conduta íntegra, eticamente irrepreensível e racional. Não sei se é de mim, mas, de repetente, contrapor as acusações de diagnóstico errado e negligência com um “apareceram-nos aqui com duas facas” não condiz com as expectativas. Se o médico acha impossível que Chan Pou U ainda tenha dores, que faça prova disso de forma séria em vez de se limitar a dizer que, em 30 anos de serviço, nunca viu um doente queixar-se quatro anos após uma lesão no cóccix.

Os Serviços de Saúde partiram para este caso, como em qualquer outro de alegada negligência médica, em desvantagem. Como de cóccix e de louco todos temos um pouco, o mais natural é que a opinião pública se coloque no lugar da vítima – mais faca, menos faca.

Os dois lados deram já sinais de desespero e à medida que este caso avança torna-se claro que a sede própria para o resolver é o tribunal. A forma como os Serviços de Saúde estão a lidar com este episódio mostra, se dúvidas houvesse, que é impossível confiar numa Comissão de Perícia do Erro Médico nomeada pelo Governo para investigar eventuais danos provocados no exercício da profissão. Esta é a terceira lição a retirar deste caso, sem ser preciso saber quem tem razão.

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s