Uma campanha mágica

Sónia Nunes

Como todos repararam, a campanha eleitoral dos candidatos a eleitores de Chui Sai On como próximo Chefe do Executivo já arrancou. Esta abertura aparatosa, com ampla cobertura mediática, faz-nos antever duas semanas de intenso debate político, demoradas leituras dos programas eleitorais à procura das melhores ideias, saudáveis escândalos e indecorosos escarcéus familiares – em qualquer parte do mundo onde se registe a simpática coincidência de estar a decorrer tal acto (considero aqui associações de estudantes do ensino secundário, direcções de sociedades filarmónicas e casas recreativas que organizem coisas vagamente parecidas com eleições) menos em Macau.

Façamos uma vénia à harmonia. A campanha eleitoral para o colégio que quase parece que elege um líder de Governo não está ao alcance de todos: é altamente complexa e uma das mais prodigiosas expressões dessa realidade abusadora de quem nos convoca para um dia destes trocarmos umas ideias sobre o assunto, como escreveu Mário de Carvalho com outros e melhores propósitos que os meus. É fácil compreender a ideia de que a campanha para a Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo é invisível: existe em consonância com os mais dignos actos de magia.

A grande virtude da reforma política trazida à eleição do Chefe do Executivo foi provar que, por mais voltas que se dê à coisa, o direito de voto pertence a uma incontestável elite. O colégio eleitoral foi alargado a mais 100 pessoas que trocam ideias sobre o assunto apenas para mostrar que no candidato nada se perde, tudo se transforma: de automaticamente eleito passou a formalmente eleito. A diferença está no orçamento (assim custa 32 milhões de patacas, mais oito por cento) e na afirmação de que as mais de 800 associações com direito a voto são unânimes na escolha dos candidatos. É a chamada selecção natural.

Perguntar como é que tanta gente se concerta na escolha dos seus representantes ao ponto de o número de candidatos coincidir com o de lugares disponíveis é querer destruir o processo de escolha do Chefe do Executivo. É querer saber o truque. A eleição do líder do Governo é um espectáculo de ilusionismo pensado para maravilhar a assistência, que de queixo caído ainda vê no palco os dedos exaustivos da Associação Comercial, dos Operários e dos Moradores, mas deixa-se levar pela ilusão apesar de andar desiludida. Será esta a explicação para a fraquíssima adesão à reunião pela mudança no sistema político convocada pela Consciência de Macau no sábado – a não ser que a força mobilizadora para as manifestações de Maio tenha também resultado de um acto de magia.

 

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