Porquê ser apolítico?

Iris Lei

Política, está claro, nunca é tema de conversa entre amigos, mas às vezes não posso deixar de imaginar que figuras públicas terão ganho a confiança dos meus amigos, especialmente durante as eleições. Já tenho expectativa que eles não estejam totalmente a par do que se passa, mas os resultados surpreendem-me quando vejo Chui Sai On retirar a proposta de lei do regime de garantias para os principais titulares de cargos públicos.

“Não me registei para votar.” Foi assim que a nossa conversa se aproximou do fim. “Não sei nada sobre política ou sobre os políticos.” Eu queria continuar a conversa e perguntar-lhes por que razão não se interessam por política, pelo menos pelos deputados eleitos pela via directa, que os representam. Mas guardei estas dúvidas para mim.

Imagine-se alguém que decide estudar Turismo ou Gestão de Empresas. Aprender ciência política está provavelmente fora do currículo desses cursos universitários. Essa pessoa pode então não aprender nada no sistema de educação sobre como o Governo e a Assembleia Legislativa funcionam, uma vez que a importância de explicar aos mais jovens o princípios básicos do sistema político também é negligenciada no ensino superior.

O meu caso foi exactamente assim. Nunca aprendi nada relacionado com política na escola (primária, secundária e universidade). Considero que foi essa a razão por que não me registei como eleitora quando atingi a idade para votar. No liceu e na escola primária, apenas tive aulas de educação cívica, que ensinam a moralidade chinesa, explicam como lidar com a pressão e outros tópicos deste género; bem como sessões curtas de leitura de jornais, em que apenas discutíamos as palavras mais complicadas em inglês na imprensa local.

De acordo com o último inquérito sobre a educação cívica, feito pela Associação de Pesquisa Sobre Juventude de Macau, há três temas que os respondentes consideram como suficientes para fazerem parte destas aulas: comportamento cívico, educação moral e patriotismo (para com Macau e para com a China Continental). Surpreendentemente, a noção de cultura ocidental está no fundo da lista.

Se os estudantes não soubessem nada sobre História da China, as escolas seriam as primeiras a levar com as culpas por não ensinarem um assunto tão crucial. O mesmo vale para o Inglês, Matemática, Física, Biologia e muitas outras que podemos listar – excepto para Política. É absolutamente injusto que os jovens sejam criticados por serem apolíticos quando não dispõem de qualquer método para ficar a conhecer o complexo sistema político que temos, ou quando o número de votantes entre os jovens está a cair.

Depois da experiência vivida entre 27 e 29 de Maio, ficou provado sem margem para dúvida que cerca de 20 mil jovens têm mais canais para aprender política nesta nova era digital. Há no entanto mais de 153 mil residentes com menos de 24 anos que precisam de ser mais e melhor elucidados.

Ainda que possa levar décadas a perceber o efeito de uma educação política, a proposta avançada pelos deputados José Pereira Coutinho e Leong Veng Chai ao menos é uma centelha esperança, desde que os deputados nomeados e eleitos pela via directa carreguem no botão ‘sim’ quando esta for votada no hemiciclo.

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