Os índios do Brasil não vão à Copa do Mundo

Parte I

Rui Rocha*

Hélder Robalo na edição de 9 de junho do DN, na secção Ciência, sob o título Desflorestação conduz à extinção de inúmeras línguas, dá-nos conta que investigadores ingleses defendem que o avanço das máquinas nas florestas não está apenas a destruir fauna e flora em todo o mundo, mas também está a fazer desaparecer muitas línguas. E continua referindo que a história de Benny Wanda, um natural da Papua Ocidental, província da Indonésia, é um reflexo de como vai o mundo. Fala nove línguas e dialetos, mas diz que ao longo da vida aprendeu e esqueceu inúmeras outras línguas e dialetos que usava para comunicar com tribos vizinhas porque, entretanto, desapareceram. O desaparecimento de uma língua, qualquer que ela seja, é sinónimo de empobrecimento do saber e de instrumentos de comunicação intra e intercultural (UNESCO, 1996)

O título desta coluna, “Arqueologias da memória,” foi intencionalmente escolhido com um propósito: exercer um direito, um dever e uma necessidade de memória, designadamente sobre eventos que não dignificam a condição humana e merecem sempre ser recordados para memória presente e futura. As ruturas da memória colectiva raramente, senão nunca, são factores de liberdade, mas sempre fontes de violência e de barbárie, como referiu o psicanalista francês, Dominique Bourdin. Na história humana não há povos inocentes, todos sabemos. Mas a memória lusa parece sofrer de uma amnésia coletiva bastante profunda e preocupante sobre os acontecimentos negros da sua história, tanto dentro do seu próprio país como em relação aos povos que colonizou. Este esquecimento coletivo, politicamente alimentado por um discurso ideológico legitimante e congelante da grandiosidade do agora eufemisticamente designado “achamento” de outros mundos, fecha o país à generosa possibilidade de gerar novas dinâmicas de relação entre pares e a realizações criativas mais ricas e mais abertas à imaginação e à evolução dos modos de ser, de estar e de pensar entre os povos que, por via da colonização, passaram a falar a língua portuguesa, cegando-a para a necessária humildade intelectual e ética de se sentir um condómino da língua portuguesa e não um proprietário dela.

Dois dias após a publicação o texto de Hélder Robalo, a RTP apresentou a 11 de Junho uma reportagem sobre os Índios Pataxó, os primitivos proprietários do Brasil, que se sentem desprezados por esse mesmo Brasil e escondidos do mundial de futebol. As formas de colonização do passado não são, afinal, substancialmente diferentes das colonizações do século XXI.

O fenómeno político da colonização foi, em regra, um processo de dominação etno-linguístico-cultural do Estado, principalmente através das escolas, junto dos povos colonizados ou até de etnocídio puro e simples, sustentado num processo de dominação da vida económica do território “descoberto”. Como refere Bourdieu (1998), a generalização do uso de uma língua dominante nas actividades e nas trocas económico-financeiras de produção e de consumo de bens e serviços é uma clara intenção política de unificação do mercado dos bens simbólicos que “acompanha a unificação da economia e, também, da produção e da circulação culturais”.

A procura predadora de hard commodities em todo o mundo, esgotando os recursos naturais escassos, com efeitos criminosos para a sobrevivência e bem-estar das gerações futuras, é a colonização do presente dos impérios neo-liberais que têm rosto, mas não têm fronteiras nem diferenças ideológicas substanciais.

 

* Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua portuguesa da Universidade Cidade de Macau

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