Os portugueses esquecidos

Inês Santinhos Gonçalves

 

Passou-se mais um 10 de Junho em Macau, aqui como em todo o lado, puxando ao patriotismo, ao saudosismo, ao provincianismo e a outros ismos bacocos. Mais um 10 de Junho com discursos redondos, agora sempre polvilhados de ânsias por investimento, que Portugal é a maior nação do mundo e é lá que todos devem investir as suas roliças finanças.

Lá onde fica a grande pátria desmaiou-nos o Presidente, trazendo alguma novidade à efeméride. Por cá, como em todos os lugares do mundo onde há portugueses, ficámo-nos pelo croquete, o hino, os elogios rasgados.

No Dia de Portugal não se falou dos milhares de portugueses que aqui vivem – aqui e pelo mundo fora –, esquecidos pelo Governo de Lisboa, esquecidos pelas embaixadas. Foi com agrado que li a declaração do cônsul-geral, Vítor Sereno, a este jornal: “Sinto-me responsável por 162 mil cidadãos. Para mim não há qualquer espécie de distinção”. Se é apenas calculismo económico, não sei, mas é certamente uma afirmação refrescante.

São várias as motivações que levaram o Governo de Portugal a atribuir nacionalidade a cidadãos com aparente pouca relação ao país. Não as critico, de maneira alguma. Mas o que não se pode admitir é que tal seja feito de forma ligeira. Não há portugueses a fingir, portugueses mais ou menos, portugueses de segunda classe. Não importa se não falam português ou se preferem o chau min ao bacalhau. E então? Onde está escrita a cartilha da portugalidade?

Portugal esqueceu-se dos seus portugueses de passaporte. Não são activos estratégicos, não são alvos de campanhas eleitorais, não têm acesso a informação traduzida na língua que dominam. Quantas eleições poderiam ser ganhas com o contributo de todos estes eleitores adormecidos?

Muito se fala da herança portuguesa em Macau e o quão importante é fortalecê-la, que pena que é que já não se fale português, que pena que é esta aproximação da China. Há 162 mil pessoas com passaporte português em Macau e Hong Kong, e apenas quatro ou cinco mil são realmente considerados portugueses. Aqui, nos antípodas do mundo, este mar de gente de identidade conturbada viu-se abandonada por uma pátria que nunca lhe foi certa. Resta-lhes usufruir dos privilégios que o documento oficial oferece e, a alguns, reinventar a portugalidade, uma sem fado e futebol, quiçá até sem Fátima.

Quem perde mais com tudo isto? Os que, de cinco em cinco anos, fazem fila no consulado para renovar uma identidade de papel, ou Portugal, que mingua e envelhece a cada dia?

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