Ser português

[O detective selvagem]

Hélder Beja

 

“Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

Eduardo Lourenço

 

Há um ano, numa carrinha qualquer que me trazia de uma praia tailandesa onde a maior parte dos turistas ocidentais se comportam como presidiários em fuga (Michel Houellebecq dixit), escrevi assim num desses smartphones sem os quais parece que já não conseguimos viver:

 

“Custa-me escrever sobre Portugal porque não é lá que vivo, porque decidi deixá-lo como um homem deixa as coxas de uma amante que perdeu o mistério no torpor repetido dos corpos. Escolhi deixar Portugal, ninguém me mandou embora, nada me forçou, fugi de coisa nenhuma a não ser do reflexo no espelho de todas as manhãs.

Escolhi deixar Portugal e agora custa-me escrever sobre as misérias do meu país, qual Eça desapossado de nome e de currículo a debitar sentenças bacocas não de Inglaterra mas de um enclave asiático que foi e alguns ainda acham que é e se comportam como se fosse a última migalha do pão bolorento desse império mal amassado.

Se a emigração é a nossa guerra, eu alistei-me de voluntário. E sei que há muitos que se alistam e que não são chamados, muitos que davam o cu e os dois tostões que já não têm para estarem na linha da frente desta batalha pela sobrevivência expatriada.

Custa-me escrever sobre Portugal ao mesmo tempo que vejo o rectângulo afundar-se como as naus que já não saem do porto de Lisboa e penso Como é possível que, Se fosse eu fazia, É inacreditável que deixemos os gajos, Somos um país de mansos, E ninguém faz nada. E ninguém faz nada, assim à distância, assim como o adepto que não percebe como pode o Postiga falhar tanto golo na selecção, vale o mesmo que a passividade alimentada por novelas, concursos de variedades imbecis que ensinam a vida moderna e fins de semana no centro comercial – nada.

Custa-me escrever sobre Portugal como me não custa estar aqui, de chinelos e calças tailandesas, numa carrinha a caminho de Banguecoque e de um hotel com piscina a despejar-se no céu de prostíbulo da cidade. Custa-me porque também queria estar lá – e em mais meia dúzia de lugares, é ubiquamente verdade – para poder escrever e fazer por Portugal.

Às vezes penso que se vivesse agora em Portugal daria o meu tempo, a minha colher de sopa de habilidade e aquele curto decilitro de coragem e rasgo que me sobram a certas causas. Penso – e se calhar só penso, porque se lá estivesse talvez andasse mais preocupado com o que comer ou com os círculos da Bica e o programa da Cinemateca – mas dizia que penso que faria o que pudesse para reverter idiotices como as portagens da A23, que deram o bilhete para Luanda, como brincavam os capos da PIDE de cada vez que assassinavam mais um em Angola (Lobo Antunes dixit), aos poucos que habitavam e habitam o interior daquele cu de judas que é Portugal. Faria o que pudesse para reverter o aumento das taxas moderadoras na saúde, que só moderam a medida da miséria de cada um, envergonhando o povo da impossibilidade de pagar para não estar doente, como se os doutores do Estado fossem como as putas de Banguecoque, que esperam mais ali à frente, e nós uns marialvas dados a luxos de lençol e cegos de tesão, que devemos dispor delas apenas na medida das nossas carteiras e da força das nossas vontades. Vamos chamar-lhe saúde pornográfica e acreditar que a masturbação é o nosso remédio.

Já sabemos que o poder económico comprou o poder político, que o poder político se abasteceu de jotas e homens e mulheres banais como as salas VIP das festas do creme brulé que vão de Lisboa a Macau. Já sabemos, em última análise, que nos fornicam bem fornicados e que a gente deixa. Só não contávamos que se esquecessem da vaselina dos dias, que nos permitisse ainda caminhar depois do banquete. Ali à frente, na Banguecoque das piscinas a despejarem-se sobre o céu e do capitalismo proxeneta para onde me leva esta carrinha voadora, diz que há muita.

Peguem então no vosso país, façam favor, e fiquem com ele. É que não sei se já disse mas custa-me escrever sobre Portugal.”

 

Confesso que hoje nem sei bem o que pensar ao ler estas pobres linhas. Confesso também, já que estamos em maré confessional, que o que está acima é uma versão editada do dito texto, tal como nós portugueses temos uma versão editada do que somos e da nossa terra, qualquer coisa entre o país real e o país sonhado (já li isto em algum lado). O texto tem então menos umas palavras e ideias que poderiam chocar a sociedade local. É que quando um tipo vive na pequena Macau, tem fartas guedelhas e barbas, e uma certa reputação libertina, o que menos deve querer é arranjar mais lenha para se carbonizar com uma crónica de jornal. Temo bem que talvez seja já tarde para isso.

Ser português (mesmo à distância) é uma coisa estranhíssima, quase de certeza tão estranha como ser islandês, zimbabueano, indonésio ou americano (não gosto muito dos americanos). Sobre os países enumerados confesso não ter grandes informações, mas ao nível da portugalidade é de ler o senhor Eduardo Lourenço e mais uns quantos, também o António Barreto, que é muito alto (um orgulho para Portugal) e que passou por cá para uma das melhores intervenções dos últimos tempos nesta terra (das melhores dos últimos cinco séculos, se tivermos em conta o nível vigente).

Outro rapaz que valia a pena ler antes de só fazer as croniquetas vazias que hoje escreve para o Público era o maluco do Miguel Esteves Cardoso. Anos 1980. Atentem: “Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ‘culpa de sermos portugueses’. Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos ‘Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?’, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ‘Podia ter sido Portugal…’ É isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ‘também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa’.”

Eu também não vou ao ponto de querer ser outra coisa que não português. Não se equivoquem ou me tomem por reaccionário. Eu amo o meu país e os meus compatriotas. Afinal o Mundial está quase a começar e temos o Cristiano Ronaldo.

Viva Portugal.

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