64, o número proibido

Iris Lei

Nos últimos dias os funcionários da rede social Weibo, uma espécie de versão chinesa do Twitter, não tiveram mãos a medir. É fácil de imaginar – imensas tentativas ‘desnecessárias’ por parte de cidadãos chineses, que vivem sob um regime intenso de censura na Internet, a tentarem expressar os seus sentimentos sobre a brutal investida militar de Tiananmen. Escrevo ‘tentativas desnecessárias’ porque quase de certeza que são barradas ou apagadas, tal como foi apagada a minha fútil tentativa de postar um simples “Não esquecer” em língua chinesa. No mesmo dia, cerca de uma hora depois, recebi uma mensagem dos administradores do site, dizendo que a minha mensagem era “inapropriada” para publicação.

De acordo com as estatística do Freeweibo, site que recupera posts censurados no Weibo, a popularidade das mensagens eliminadas é a seguinte: “seis quatro”, “Tiananmen”, “vela”, “64”, hoje”, “Victoria Park” e “25º aniversário” (para minha surpresa “Google” também está no top 10). Obviamente, fazem parte da lista muitos outros termos ‘inapropriados’ como “1989” e “massacre”. “Maio 35º” e “o dia entre Maio 34º e 36º” são as apostas mais seguras para escapar aos censores.

Olhando para as mensagens barradas, algumas delas, do meu ponto de vista, não são de todo radicais, como por exemplo alguém que conta ter passado pela Praça Tiananmen e ter visto um dispositivo de segurança intenso; ou “muitas velas”, publicado por outro utilizador, que também não passou no escrutínio.

Os funcionários que removem as mensagens consideradas inapropriadas estão apenas a cumprir o seu dever para com a empresa, que descontará nos seus salários caso alguma mensagem sensível passe. Um desses trabalhadores disse a Lee Check Yan, líder do movimento de Hong Kong que lembra as vítimas de Tiananmen, que nas mensagens que apagava diariamente viu várias vezes a morada do Museu do 4 de Junho e que a curiosidade acabou por levá-lo lá.

Testei o nível de escrutínio da Internet feito pelas autoridades chinesas, ao escrever o número “64” no Baidu, um dos motores de busca mais populares no país. O primeiro resultado foi “o número natural entre 63 e 65”, enquanto que no Google “64, palavras relacionadas com Tiananmen que a China está a bloquear hoje” era o resultado cimeiro.

Se relacionarmos todas as palavras sensíveis, a história pode ser contada: “Hoje, 4 de Junho, é o 25º aniversário do massacre de Tiananmen”. A BBC tira conclusões sobre a repressão chinesa: a China tem mais de 6,2 milhões de utilizadores da Internet, mas zero discussão online sobre a Praça Tiananmen. Diria que isto não é muito preciso, uma vez que acredito que há pessoas no Continente com coragem para discutir este tema tabu em lugares onde não há traidores, estranhos, cobertura por satélite ou membros do partido.

 

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