Moralidade e Revolta

Ana Cristina Alves*

Muitos séculos antes do célebre aforismo kantiano, recordemo-lo:

há duas coisas que reverencio, o Céu estrelado sobre mim e a Lei Moral em mim,

já os chineses veneravam a lei moral que descobriam na condutas exemplares dos Reis Sábios da Antiguidade. Veja-se a este respeito as biografias do Yao (堯) e Shun(舜) relatadas em Mitos e Lendas da Terra do Dragão (2009) por Wang Suoying e por mim.

Estes reis distinguiram-se por colocar em prática um comportamento ético modelar, orientado pela virtude máxima de Ren (仁), que numa tradução possível, mas aquém de toda a simbologia desta palavra, significa benevolência.

Em o Grande Estudo (《大學》), um dos quatro pilares do Confucionismo, atribuído em grande parte a um discípulo de Confúcio Zengzi (曾子) , e redigido a pensar na educação dos cavalheiros e portanto dos governantes, somos informados que: se nas famílias reina a benevolência, o país promove benevolência, se nas famílias reina a permissividade, o país é permissivo, se o governante for ganancioso e cruel, haverá automaticamente caos no reino, provocando a sua ruína.

Por isso, os Reis Sábios da Antiguidade como Yao e Shun recorriam à benevolência para governarem e as pessoas eram obedientes (一家仁,以国兴仁;一家让,一国兴让;一人贪戾,以一国作乱;其机如此。此谓一言偾事,一人定国。尧、舜帅天下以仁, 1991:10)

Os valores e virtudes ético-morais, via tradição confucionista, foram inculcados aos chineses desde a mais tenra idade, pelo que, mesmo com revoluções políticas pelo meio a afastarem-nos destes valores, eles nunca os perderam, estando-lhes bem impregnado no código cultural.

Recordando que os chineses não são todos iguais, e que os do Continente têm comportamentos diferentes dos de Macau, Hong Kong e Taiwan, o certo é que há o tal “ADN cultural ético-moral” que todos partilham.

Voltando aos Dragões da República Popular da China, se aceitam contradições gritantes na sua constituição ao nível político, tais como estarem integrados “num Estado socialista sob ditadura democrática” (2013: 186), são muito sensíveis à postura ético-moral dos governantes, que devem sacrificar-se integralmente pelo povo. Para eles um dos exemplos máximos era Yao, que perdia o sossego e a paz de espírito culpabilizando-se ao infinito sempre que sucedia uma injustiça no seu reino.

Nos Analectos de Confúcio pode ler-se no capítulo II, dedicado ao Governo (《論語.為政篇第二,1》)O Mestre disse: Aquele que governa pela força moral é como a estrela polar, que se mantém fixa enquanto as outras estrelas giram à sua volta. (子曰:“為政以德,譬如北辰,居其所而眾星共之。”)

Actualmente, entre os temas que mais afligem os chineses da República Popular da China, encontram-se a poluição, a falta de segurança e transparência nos contratos de trabalho, as desigualdades sociais, o enriquecimento vertiginoso de certos quadros políticos, a  corrupção e a falta de transparência na gestão da coisa pública.

Jane Jiang, uma das interlocutoras de António Caeiro em Novas Coisas da China, Mudo Logo Existo afirma que sendo a corrupção um dos maiores problemas, o governo “deve ser mais prático, lógico e progressista” (2013:29). Isto significa que se encontra longe do horizonte dos chineses fazerem uma revolução, mas que manifestarão, sempre que considerarem necessário e com total energia, o seu repúdio a comportamentos das chefias que lhes pareçam pouco virtuosos e onde paire a suspeita que os interesses individuais estão a ser colocados em primeiro plano em detrimento do Bem Comum.

Ora os chineses da Região Administrativa Especial de Macau não diferem dos restantes compatriotas a este respeito e quando o Chefe do Executivo tentou fazer passar o diploma do regime de benefícios para os políticos que tenham exercido cargos públicos, o povo levantou-se como fará sempre que surgirem este tipo de projectos, e mais depressa aqui ou em qualquer outra parte da China um governo cairá por suspeita da falta de ética do que pela ostentação de comportamentos autoritários.

O Chefe do Executivo retirou o diploma e fez bem, visto que estava em jogo muito mais do que uma simples revolta e podia ter acabado pessimamente.

Já passou, mas que fique a lição, porque não poderá suceder segunda vez:

O Mestre disse: se o povo for guiado por regulamentos e se tentar manter a ordem por meio de castigos, talvez evite fazer o que está errado, porém perderá a vergonha, mas se for guiado pela força moral e por meio dos ritos, manterá a vergonha e obedecerá de livre-vontade.

(《論語.為政篇第二,3)子曰:“道之以政,齊之以刑,民免而無恥;道之以德,齊之以禮,有恥具格”

 

*Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades

 

 

Bibliografia e webgrafia

 

Citações de Kant: http://www.brainyquote.com/quotes/authors/i/immanuel_kant.html

黄朴民et al.1991. 《白话四书》西安:三秦出版社

Caeiro, António. 2013. Novas Coisas da China: Mudo, logo existo. Lisboa: D. Quixote

劉示範(ed)《論語》2004一濟南:山東教育出版社

 

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