Medo de quê?

Inês Santinhos Gonçalves

A qualquer jornalista recém-chegado é dito o mesmo: as pessoas em Macau não falam. Não querem ser identificadas, não se querem expor, não dão opiniões, não censuram, não analisam, não querem fotografias. Têm convicções de café, onde comentam de forma eloquente todos os temas da vida quotidiana. Queixam-se do estado das coisas, do Governo, garantem saber isto e aquilo, reivindicam, apontam o dedo.

No dia em que vos escrevo assinalam-se os 25 anos do massacre de Tiananmen, um dos acontecimentos mais bárbaros da história da China. Nos jornais de Macau, poucas linhas foram dedicadas ao assunto. Haveria algo mais relevante para ocupar as páginas dos diários?

Há 25 anos, no editorial do jornal Ou Mun lia-se: “O dia 4 de Junho é o dia mais negro e desumano dos cerca de 40 anos após a implantação da República Popular. Esse dia negro, a história virá a contá-lo para sempre”. A história conta, sim, mas não graças ao Ou Mun, que dias depois, após o elogio de Deng Xiaoping à intervenção militar na praça, refreou o tom. Entre os que manifestaram fervoroso apoio aos estudantes estavam figuras como Edmund Ho, Susana Chou, Lau Cheok Va e Stanley Ho. Nenhum deles estará certamente na vigília em homenagem às vítimas.

Quem fala de Tiananmen em Macau? Falaram a este jornal três estudantes da China Continental, esses sim com motivos para recear, esses sim que cresceram entre sussurros sobre algo que se terá passado num dia 4. São esses jovens, que temem represálias no regresso a casa, que dão a cara e garantem presença na vigília.

Diz-se que as pessoas em Macau têm medo de falar. Mas medo de quê? Estão comprometidas com os patrões, com a imagem que querem projectar de si – uma imagem que parece ficar beliscada pelo mero facto de aparecerem –, com amizades políticas, com o grande empregador que é o Governo. Não duvido. Mas lidar com a pressão social é uma coisa, ter medo é outra coisa. Quem tem medo tem todo o meu respeito e solidariedade.

Neste dia histórico tão pouco lembrado na imprensa local, deixo a minha homenagem aos que, há 25 anos, tiveram medo, certamente um medo atroz, e ainda assim tiveram a coragem de se fazer ouvir. Em 2014, ainda os ouvimos.

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