O livro póstumo de Antonio Tabucchi

Fernanda Gil Costa*

Antonio Tabucchi  (1943-2012) é frequentemente considerado o segundo maior escritor italiano do século XX, logo a seguir a Italo Calvino. Para além disso, Tabucchi tem também um lugar especial nas letras portuguesas porque deixou na sua obra explícitos laços com a cultura portuguesa de que foi entusiasta estudioso, tornando-a motivo quase obsessivo dos seus romances.  Viveu em Lisboa muitos anos (e foi em Lisboa que morreu, em 2012)  onde teve e deixou muitos amigos. Estudou criteriosamente a obra de Fernando Pessoa, convocou-o a “Requiem: uma alucinação” (escrito directamente em português, em 1991), uma das suas novelas mais enigmáticas e desafiadoras e, se recordarmos o seu romance “Afirma Pereira” (Sostiene Pereira), talvez o mais famoso devido à  adaptação ao cinema (1995), em que Pereira foi  representado por Marcelo Mastroianni, teremos de reconhecer uma das incursões mais originais e perturbadoras pela história do salazarismo e do movimento anti-fascista em Portugal.

Em Março de 2014, cerca de dois anos após a sua morte, Tabucchi voltou à cena intelectual portuguesa com um romance póstumo, “Para Isabel. Um Mandala” (publicado em italiano em 2013), por dedicação de Maria José Lencastre e Carlo Feltrinelli e cumprindo um regresso que coloca a vida e a morte em directo intercâmbio, como muitas vezes aconteceu na ficção do autor.  Curiosamente, mas não inesperadamente, “Para Isabel”, que estava pronto há muitos anos (desde 1996) retoma os temas caros ao escritor: o fascismo português, a polícia política e os opositores ao estado Novo e o enigma continuado da vida.

Como Mª José Lencastre e Franco Feltrinelli afirmam na nota final, este novo romance impõe-se “como pedra angular da construção narrativa de Tabucchi” porque apresenta mais uma variante do seu modelo narrativo preferido, que coloca no centro uma demanda em torno de um caso que constantemente escapa à descrição e ao esclarecimento, como um enredo criminal.

“Para Isabel” traz como subtítulo “Um mandala”, palavra que em sânscrito significava círculo, e é encarado também como um diagrama do cosmo, um símbolo iniciático de totalidade, segredo e integração.  Assim, o livro é composto por nove capítulos, designados por círculos, em que várias  personagens reflectem o seu saber ou intuição sobre a demanda em curso até  chegar ao fim do mistério, já que Isabel reaparece mas nada diz sobre o seu “outrora” que considera inseparável do seu “agora”.

A busca por Isabel é empreendida desde o início do romance através de uma série de entrevistas que se vão acrescentando como varetas de um leque que se destina, pelo menos na aparência, a ser completamente aberto. Por outro lado, Isabel é mais uma figuração do militante anti-fascista, uma jovem de história conturbada (e clandestina) que acaba por se infiltrar na luta contra o Estado Novo  sem deixar de  se apaixonar pela vida.

Aparentemente Isabel está morta (ou tem paradeiro totalmente desconhecido) no início do romance e quem inicia a busca conhece alguns factos do seu passado e pretende, na aparência,  recuperar a sua verdadeira história. O método de iluminação é conhecido dos leitores de Tabucchi.

À medida que os testemunhos sobre Isabel se acumulam, a sua figura vai perdendo a nitidez (na edição portuguesa a capa mostra uma mulher carregando uma mala e um vestido vermelho com o rosto ocultado por uma nuvem) porque os relatos incidem sobre  o seu rasto de forma tão díspar, complementar ou mesmo contraditória, que o leitor sente por vezes que a personagem pertence a várias histórias. Na obra de Tabucchi as personagens lutam frequentemente, de forma obsessiva, por uma identidade que teima em escapar ou entrar em processo de metamorfose. Já em “Nocturno Indiano” a busca da personagem principal pelo amigo era essencialmente um processo de auto-conhecimento e perda / transformação do objectivo anunciado.

Isabel, por seu lado,  surge com grande nitidez e relevo no primeiro ‘círculo’ e no testemunho de Mónica, a amiga de infância. Porém, a partir daí e cada vez de forma mais enigmática, os  testemunhos insistem em questionar as certezas da  primeira entrevista. Também Macau e o Fantasma que Caminha (Camilo Pessanha em citações literais) são estações do iniciático percurso em que morte e vida são reinos comunicantes numa  senda de encontros que rapidamente  ultrapassa a investigação tradicional e abre espaço a contactos inexplicáveis mensagens  de entidades obscuras. A relação de Isabel  com os pais,  o afastamento prematuro da infância, o radicalismo no princípio da idade adulta,  a vida universitária, os testemunhos sobre a vida sentimental atribulada e sobre a actividade politica em clandestinidade, insinuando a dúvida da gravidez, da prisão e da morte prematura por suicídio, terão abordagens diferentes por parte de todos os envolvidos.

A revelação, no final, de que o autor da demanda (afinal amante saudoso e culpado, e não investigador desinteressado) encontrou finalmente Isabel, a fugitiva,  para além do mero mundo físico: “fugi para  o nada”,  confessa ela, “agora reencontraste-me no último círculo, mas quero que saibas que o teu centro é o meu nada em que me encontro agora”, é também  a descoberta de que a demanda de Tadeus  por Isabel é ainda e sobretudo a busca de si próprio e do passado que deixou incumprido.

Na obra de Tabucchi a vida foi sempre um lugar de presenças invisíveis mas sensíveis. O seu primeiro romance póstumo é talvez um testemunho dessa vida dos livros que continua a espreitar-nos  e a interpelar o nosso entendimento e o nosso prazer de leitores.

 

*directora do Departamento de Portugues na Universidade de Macau

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